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Como os meus companheiros Alegro também venho encerrar a minha colaboração. Ontem, logo que soaram as oito horas e soube que Cavaco Silva tinha sido eleito à primeira volta e que a abstenção teria provavelmente um novo recorde, desliguei tudo. Não era mau perder. Não sinto que tenha perdido. Ganhei, e foi bastante. Percebi que a utopia, enquanto palavra, enquanto conceito, não é passível de ser legitimada por modismos. É qualquer coisa visceral, que te diz a ti quem és, quem queres ser, onde queres estar, com quem queres estar. É uma coisa de sempre, para sempre.

 

É claro que estava zangado com alguns amigos, gente que passava no facebook, a dizer que se abstinha, que votava em branco. Apetecia-me praguejar contra eles. Seria um disparate. Eles tinham as suas razões e eu não só as compreendia como, no caso do voto em branco, até reconheço que não há nenhuma razão para que a ciência política eleitoral não arranje forma de evitar que eles, enquanto opção eleitoral expressa, aumentem o caudal dessa inexpressiva mancha que põe em causa a nossa democracia política.

 

Mas em consciência não podia invectivá-los. Nem mesmo os abstencionistas. Como é que podia invectivar mais de cinco milhões de portugueses? Desde há largos anos que a abstenção tem atingido níveis recordes e, para além da depuração dos cadernos eleitorais, vi fazer pouco mais. Os circulos eleitorais mais próximos dos eleitores, cairam. A regionalização, caiu. Até numa eleição como a presidencial em que cada um de nós elege só um português para representar dez milhões de portugueses, os Partidos assumem-se muitas vezes como os donos do jogo em relação aos candidatos, introduzindo uma componente de distanciação dos eleitores em relação aos mesmos. O Partido Comunista  apresenta sistematicamente uma candidatura própria, para marcar o seu espaço político. O Partido Socialista é já a segunda vez que apresenta um candidato próprio que concorreu contra um outro candidato que também era militante do seu partido. E poder-se-á perguntar: e então, não é legítimo? É. Cinco milhões de abstencionistas também é legítimo. Não estamos aqui a falar de legitimidade política. Estamos a falar da sobrevivência da democracia política tal como a conhecemos.

 

Ora uma das realidades mais presentes na vida contemporânea é a quebra do sistema de representação. A crise da representação. Que tem alguns aspectos positivos, na medida em que decorre da influência que o progresso social e tecnológico colocado tem na mudança de paradigmas da nossa cultura política (há um pequeno livrinho, Democracia Virtual, que tenta abordar esta questão) mas tem também aspectos muito perturbadores, porque no vaivém das novas procuras de identidade, e consequentemente, de representação, há vazios que surgem, como este, que assistimos anteontem, e para o qual só temos não respostas. Dizer que cinco milhões de portugueses não cumpriram o seu dever de portugueses é uma não resposta.

 

Até porque não se trata de uma eleição qualquer, não se trata de uma situação eleitoral comum. Para mim uma das coisas mais perturbantes da ideia de identidade nacional, de identidade de uma comunidade, é saber que mais de cinco milhões de pessoas não sairam de casa mesmo sabendo que era previsível que se não o fizessem, para representar dez milhões de portugueses, seria eleito um homem que declaradamente tirou grandes mais valias financeiras da sua associação a actos  (por parte de uma pessoa que, num outro contexto,  irá ser julgada  por ter praticado actos análogos a esses) semelhantes a outros que  foram enquadrados numa tipologia de  crimes económicos que tanto lesaram um Banco e cuja nacionaliação tanto lesou o país.

 

Para além da questão ideológica, esquerda, direita, esta é uma leitura que eu não consigo evitar. E que merece uma pergunta mai inquieta: que divórcio é este entre o representado e o processo de representação que faz que nem assim ele vá votar?

 

Não há perguntas de esquerda nem de direita, mas esta é claramente uma pergunta em que a resposta da Esquerda terá de fazer toda a diferença.

 

 

Joaquim Paulo Nogueira às 02:35 | link do post | comentar