Cavaco vs Alegre: do autoritarismo à democracia

 

Há um episódio que marcou a pré-pré-campanha eleitoral para as presidenciais de 2011 e que vale a pena repescar. Com base em investigação própria, nomeadamente nos arquivos da PIDE na Torre Tombo, a revista Sábado revelava que enquanto Alegre combatia o regime autoritário a partir do exílio (Argel, etc.), militando na oposição política ao mesmo e apoiando até acções armadas contra a ditadura, Cavaco prosseguia os seus estudos e o seu trabalho e, para tanto, declarava-se à PIDE como um cidadão “bem integrado no regime político” autoritário. Nem isto faz necessariamente de Alegre um democrata, embora depois do 25 de Abril os seus combates pela democracia pluralista e contra a unicidade sindical tenham revelado em pleno as suas convicções democráticas, nem faz de Cavaco um apoiante do regime autoritário.

 

Mais, aquelas atitudes de Cavaco estarão até mais próximas das da maioria dos portugueses comuns de então. Todavia, é um elemento importante porque é elucidativo do seu CV político: enquanto uns (Manuel Alegre, muitos comunistas e membros da esquerda radical, muitos socialistas, monárquicos, republicanos, até muitos membros do actual PSD – designadamente, a ala liberal na Assembleia Nacional do Estado Novo, que se bateu aí pelas liberdades públicas civis e políticas, contra a vontade da ANP, e assim contribui para a transição democrática – como Mota Amaral, Magalhães Mota, Francisco Sá Carneiro, etc.) abdicavam (total ou parcialmente) das suas carreiras (e vidas pessoais) e se batiam pelas liberdades e pela justiça social (com risco da própria liberdade pessoal), Cavaco fazia jus à máxima do Estado Novo "a minha política é o trabalho”… Nisso, por um lado, estava até mais próximo do cidadão português comum sob a ditadura. Mas estava também, por outro lado, mais longe do perfil dos grandes líderes, os quais se afirmam sobretudo em situações difíceis (como era manifestamente a da ditadura do Estado Novo).

 

Mas mais grave é que, já depois do Estado Novo, Cavaco evidenciava uma dualidade de tratamento perante a antiga polícia política da ditadura e os militares revolucionários que propiciaram o 25 de Abril, a transição democrática e, portanto, o regime político em que (felizmente) vivemos: em 1989 Cavaco Silva recusou conceder ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, uma pensão por “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao país”; porém, concedeu uma pensão equivalente a dois ex-dirigentes da PIDE. É caso para dizer: a ficha do cidadão Cavaco Silva na PIDE declarando-se "bem integrado no regime político” autoritário faz outro sentido a esta luz, certo? Mais: podemos assim confiar que, em situações muito difíceis como as que se avizinham (sobretudo em matéria de direitos sociais, mas não só), Cavaco defenderá com convicção e determinação os direitos fundamentais (civis, políticos e sociais) dos cidadãos? Se neste caso poderão, porventura, restar algumas dúvidas, pelo menos a julgar pelo CV político de Cavaco, no caso de Alegre penso que, pelo seu passado político, essas dúvidas não se justificam de todo: é toda uma vida em luta pelas liberdades cívicas e políticas, pelos direitos fundamentais dos cidadãos, em suma, pela democracia.

André Freire às 21:24 | link do post