Campanhas sujas ou negócios sujos?

Marques Mendes, ex-ministro de Cavaco, apareceu na televisão a garantir que não havia qualquer favor na compra e venda de acções da SLN, sociedade detentora do BPN, por Cavaco. Explicou o porquê: Cavaco vendeu as acções a 2,4€, quando valeriam 2,61€ nessa altura. Caso encerrado. José Manuel Fernandes, no Público (link só para assinantes), defende o seu candidato, dizendo que já teria dado todas as informações necessárias sobre o negócio. O Sol, jornal de Joaquim Coimbra, membro da Comissão de Honra de Cavaco Silva e um dos accionistas do BPN e da SLN, insiste que Cavaco, coitado, até perdeu dinheiro.

Afinal, o economista não é grande especialista em compra e venda de acções. Nada de estranho, note-se: eu também sou economista e tenho a certeza que perderia todo o meu dinheiro em um mês se me pusesse a especular na bolsa. Ficamo-nos então por aqui? Nem por isso.

O favor que Cavaco teve de Oliveira e Costa não consistiu no preço de venda mas antes no preço de compra. Vamos então por passos.

Meses antes da compra das acções, o BPN tinha realizado um aumento de capital. Como reporta o Público, a "24 de Novembro de 2000, o valor dos títulos foi fixado em três categorias: a 1,8 euros para venda aos accionistas, a 2,2 euros a outros investidores e a um euro para um lote de acções que Oliveira Costa reservou para si e para algumas sociedades do grupo, entre as quais a SLN Valor." Ou seja, uma pessoa que tivesse comprado as acções ao seu preço normal e vendido quando Cavaco as vendeu e ao preço a que ele vendeu teria realizado um lucro de 9.09% a 33,33%. Cavaco teve um lucro de 140%.

Para ser ainda mais claro: Cavaco comprou as acções a Oliveira e Costa, a um preço de favor. Vendeu-as mais tarde, por intermédio de Oliveira e Costa, tendo um lucro muito superior ao oferecido a outros accionistas.

Não comprou umas acções quaisquer disponíveis ao balcão do BPN, porque se tratavam de acções não cotadas em bolsa.

Não comprou sequer umas acções do lote colocado para venda a accionistas e investidores, porque se tratavam de acções reservadas a Oliveira e Costa.

Comprou acções especiais, a um preço especial. Como? Não sabemos, Cavaco não explica. Quando inquirido pela RTP, apenas respondeu que "não alimenta campanhas sujas, desonestas". Isto vindo de quem alimenta a ideia de que Alegre é um corrupto porque talvez não tenha devolvido um cheque por uma campanha publicitária, depois de ter solicitado a suspensão da campanha e contactado o BPP para devolver o dinheiro.

Publicado também no Mãos Visíveis.

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Ricardo Sequeiros Coelho às 17:38 | link do post | comentar