Discurso Alegre.

No âmbito da visita de Manuel Alegre às Comunidades em 28 de Novembro de 2010, as tais Comunidades portuguesas que o Prof. Cavaco evitou consciente e cuidadosamente...  

Para mim e para os que represento, é um dia inesperado. Um dia grande. Um dia grave. Um dia histórico. Um dia único. Um dia alegre. Um dia Manuel Alegre.

 

Dizem que somos poucos. Quem ? Nós, os Portugueses. Talvez… Em particular, ainda no que diz respeito à participação cívica e política. Dizem que somos discretos, pior invisivéis, tanto do lado de origem como no país de acolhimento.

 

O meu compromisso político nasceu da vontade de contradizer esta realidade triste que sei em verdadeira transformação, melhor dito, ouso a palavra revolução. Tranquila mas determinada. Como assim? Compremeti-me para ver um sonho realizado, o sonho de ver os Portugueses plenamente inseridos na vida pública dos seus países. Nas escolas, nas associações, nas freguesias, nas câmaras, nos concelhos de todo o généro, nas Assembleias da República. Com voz e voz que seja ouvida! Cá e lá.  

 

Apesar das inúmeras dificuldades no caminho, o que me espanta e não exagero quando o digo, todos os dias, é a vitalidade do mundo associativo português, a capacidade das segundas e terceiras gerações afirmarem ser e viverem como Portugueses. Continua-se a gritar, por aqui e por ali, para conseguir aulas de português, verbas, locais de vida portuguesa no coração das cidades francesas, geminações, portugalidade, até que enfim!

 

Dr. Manuel Alegre, volte a Portugal com a certeza que Portugal também está aqui, em França, e na Europa. Para alguns de nós, desde há mais de meio século. Nenhum país deve ter tantos embaixadores pelos quatro cantos do mundo a ser Portugal.

 

De facto, neste pedaço do meu compromisso político, simplesmente, não me canso de tentar estar à altura desta história do Salto, e desta frase da minha mãe: «Tu não sabes o que chorámos quando deixámos Portugal».

 

Sim, Dr. Manuel Alegre, veio ao encontro de pedaços de Portugal e aproveito para ler um poema seu que tantos, tantos rodeios fez as nossas vidas. Um poema vindo à luz, em julho de 1964 quando chegou, como tantos dos seus compatriotas, em Paris na Gare d’Austerlitz. 

 

Solitário

por entre a gente eu vi o meu país.

Era um perfil

de sal

e Abril.

Era um puro país azul e proletário.

Anónimo passava. E era Portugal

que passava por entre a gente e solitário

nas ruas de Paris.

 

Vi minha pátria derramada

na Gare de Ausrerlitz.

Eram cestos

e cestos pelo chão. Pedaços

do meu país.

Restos.

Braços.

Minha pátria sem nada

despejada nas ruas de Paris.

 

E o trigo?

E o mar?

Foi a terra que não te quis

ou alguém que roubou as flores de abril?

Solitário por entre a gente caminhei contigo

os olhos longe como o trigo e o mar.

Éramos cem duzentos mil?

E caminhávamos. Braços e mãos para alugar

meu Portugal nas ruas de Paris.

 

Meu Portugal em Paris

O Canto e as Armas (1967)

O homem que escreveu estas linhas, estes versos, à procura dos seus, à nossa procura, sem outras armas do que palavras, no exílio, só pode ser Presidente da República, de Portugal e de todos os Portugueses!

 

Com este poema, disse-nos ter caminhado connosco. Hoje, somos nós, outros filhos de Portugal, filhos destes Portugueses que dizem com orgulho e alegria, aqui, agora, querer caminhar consigo. Ao seu lado, sempre que precisar e, sempre que Portugal precisar de nós.

 

Viva este país « onde a terra se acaba e o mar começa, » « este verde azul cinzento » seu!

Viva Portugal !

Vive Manuel Alegre !

 Manuel Alegre Nathalie Oliveira

Natali Oliveira às 15:21 | link do post | comentar