Cavaco e a laicidade

 

Foram tantos e tão graves os acontecimentos vividos nos últimos tempos, e tudo se passou de uma forma a tal ponto vertiginosa, que a visita de Bento 16 a Portugal parece ter-se realizado há uma eternidade, quando ainda nem sequer decorreram nove meses desde que teve lugar.

 

Mas, neste momento de balanço crítico do actual mandato do presidente da República, convém lembrar o que foi então o seu comportamento em termos de falta de respeito pela laicidade da República, a que os portugueses tinham direito.

 

Muitas vozes tentaram fazer-se ouvir desde que foi anunciada a visita e as circunstâncias em que a mesma decorreria como, por exemplo, a de 5.550 pessoas que assinaram uma Petição, da qual retiro dois parágrafos mas que se encontra online na íntegra:

 

«Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

 

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.»

 

O que se passou na realidade é do conhecimento público, mas a própria página da Presidência da República (verdadeira bíblia, permanentemente citada por Cavaco Silva…) registou para a eternidade que o presidente foi esperar o papa ao aeroporto de Lisboa, o recebeu com Honras de Estado nos Jerónimos e depois em Belém, assistiu à missa no Terreiro do Paço em Lisboa, às cerimónias em Fátima e foi à despedida no aeroporto Sá Carneiro, no Porto.

 

O exagero que tudo isto representou, em especial a participação nos actos religiosos, não como cidadão católico mas com estatuto de chefe de Estado (ou não estaria registada e ilustradíssima na página da Presidência...), foi, no meu entender, absolutamente inadmissível.

 

Num outro registo, recorde-se também como lamentável a presença de toda a família do presidente na cerimónia que teve lugar no Palácio de Belém, numa clara sobreposição do plano oficial com o familiar. Este vídeo notável ficará guardado no nosso anedotário - e não só.

 

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Joana Lopes às 17:22 | link do post | comentar