O abstencionismo, doença infantil da esquerda

A brutalidade da crise e das medidas tomadas atingindo de modo injusto e desigual a maioria dos portugueses, as promessas incumpridas, os privilégios chocantes de uma minoria de poderosos, as promiscuidades patentes entre políticas públicas e negócios privados, uma governação orientada para o bloco central de interesses e sustentada nos PECs negociados entre PS e PSD, tornam mais difícil para muitos cidadãos a compreensão da importância das eleições presidenciais para o nosso futuro colectivo e para as suas vidas e acentuam à esquerda os riscos de abstenção como modo de rejeição do actual estado de coisas. Tanto mais que para uma parte do povo de esquerda não é fácil diferenciar os combates políticos e sociais quanto à governação das opções de voto nas presidenciais.

 

A campanha que tem vindo a ser desenvolvida descaradamente por Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite e outros (e que Fernando Nobre, não por acaso, acompanha) de crítica à “classe política” e aos “políticos”, pretende exactamente pescar nas águas do legítimo desencanto dos cidadãos pelo que tem sido o curso da nossa democracia política, como se eles próprios não fossem políticos no activo e com responsabilidades grandes nos problemas acumulados pelo País e tentando fazer apagar convenientemente esse facto da memória dos portugueses.

 

Sabe a direita, unida em torno de um candidato e espreitando a possibilidade de ver cumprido o seu sonho de décadas – um governo, uma maioria, um presidente – que o discurso populista anti-“políticos” com que disfarça as suas responsabilidades, associado a um discurso de mudança que encobre o seu projecto de arrasar o Estado Social e os direitos laborais à boleia da crise, pode enganar incautos e descontentes. 

 

À esquerda, as divisões existentes e a falta de luz ao fundo do túnel quanto a uma política alternativa, favorecem o desencanto e o desânimo, a abdicação do combate político, logo, a abstenção.

 

É, pois, sobretudo à esquerda, que se torna decisiva o debate político e a mobilização pelo exercício do direito de voto e contra a abstenção, (atenção ao oportuno esclarecimento da CNE quanto ao facto de os brancos ou nulos não contarem nas presidenciais como validamente expressos e equivalerem à abstenção – ver aqui).

 

A abstenção, sendo uma opção legítima, não é solução para afirmar o desencanto e protestar contra o estado da política portuguesa.

 

No momento em que Cavaco Silva mostra cada vez mais o que lhe vai na alma e a quem serve, afirmando-se abertamente como aluno bem comportado e defensor dos mercados financeiros que castigam fortemente o nosso País em busca de lucro fácil e especulativo, agitando o papão de que a eleição de um candidato de esquerda assustaria os mercados nossos “amigos” a quem só ele daria garantias, ninguém à esquerda pode fechar os olhos e, por desencanto ou protesto, acantonar-se na abstenção, directa ou via voto branco ou nulo.

 

A candidatura de Manuel Alegre, sem ignorar a desigualdade desfavorável deste combate político, é na situação a que chegámos a candidatura da esquerda plural cuja eleição significaria colocar na Presidência da República um cidadão que não será, como já demonstrou no seu percurso de vida e no seu compromisso, um yes man do Governo e dos interesses instalados, nem um servidor atento e venerador dos mercados ou da orientação monetarista e ultraliberal da União Europeia, antes será um firme defensor do Estado Social e da Constituição.

 

Nos tempos que correm, concentrar o voto da esquerda num candidato assim não é coisa pouca ou de menor importância para o nosso próximo futuro, perante os problemas que temos pela frente e os apetites cada vez mais descobertos da direita, dos grandes interesses económicos e financeiros e dos que os servem nos partidos políticos.

Henrique Sousa às 01:35 | link do post | comentar