Era uma vez alguém que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e era o mais sério da sua rua

Esta campanha eleitoral está a permitir, a quem tiver os olhos bem abertos, apear do pedestal uma figura que há muito ocupa os palcos da política profissional (mas não é político, isso é para os outros) e reduzi-la à sua dimensão de comum mortal.

 

Cavaco Silva, apesar de levado num andor, usando e abusando da condição de Presidente, principal beneficiário da crise e dos seus efeitos, aproveitando o "respeitinho" pela autoridade que ainda permanece nos genes lusitanos inoculado por cinco décadas de ditadura, de que a conhecida complacência mediática é um mero exemplo (as perguntas difíceis são para os outros), já mostrou abundantemente o seu desconforto com o contraditório.

 

 O seu jeito de monarca sem trono não coexiste bem com a necessária colocação democrática no mesmo plano dos demais candidatos. Gosta da homenagem e da procissão, não de debate e confrontação de ideias e críticas. O que aliás está em correspondência com a sua comovedora tese tecnocrática de reduzir a diferença política e de políticas a um mero debate entre técnicos competentes que acabariam todos de mãos dadas com a mesma solução (desde que seja a dele).

 

 Dois factos desta campanha eleitoral ilustram o seu cariz autoritário e imperial:

 

1. Perante a exigência pública de que esclareça as suas relações com o BPN e os seus accionistas a propósito da compra e venda de um lote de acções, afirmou presunçosamente ser o mais sério do País e arredores e escusou-se (desde 2008, quando o Expresso levantou o problema) a esclarecer simplesmente a quem comprou e a quem vendeu e o contexto do negócio, preferindo optar pelo insulto pessoal ao seu directo opositor Manuel Alegre, delegando nos seus fiéis explicações avulsas e esfarrapadas e confiando nos elevados níveis de aceitação social do desenrascanço, do favor, e da cunha, que são o caldo de cultura da mistura entre política e negócios, para ultrapassar incólume esta questão.  

 

Para o promotor da política do betão, das obras para encher o olho, das parcerias público-privadas (lembram-se do negócio da Lusoponte e do seu ministro das Obras Públicas que agora é presidente desse grande negócio?), do cultor de um autoritarismo que se tornou insuportável (e que a memória curta de alguns agora esquece), do discurso do bom aluno europeu que abdicou de facto da defesa dos recursos nacionais, da sua governação como um período de ouro, o erro não existe, a culpa pessoal também não.

 

Cavaco Silva parece incapaz de aceitar que a exigência legítima do esclarecimento do seu negócio de acções do BPN é um problema político e uma questão de escrutínio público de um candidato ao alto cargo de Presidente da República, não é nenhuma chicana pessoal. Mas não merece o benefício da dúvida, com a experiência que acumulou e com a superior inteligência de que se reclama, quanto à incompreensão de que esta questão se tornou um tema relevante de campanha porque se relaciona com um Banco onde foi praticada uma gestão danosa da responsabilidade de amigos seus, administradores e accionistas, de carácter criminoso, cujas consequências vão ser pagas duramente e ao longo de vários anos pelos contribuintes.

 

2. Perante a proposta de Manuel Alegre de que, enquanto Presidente, se envolvesse activamente em diligências, junto de outros Estados e instâncias internacionais, para abrandar a pressão política e especulativa sobre Portugal, acusou Manuel Alegre de ignorância sobre as funções e competências do Presidente da República, recusando ter qualquer papel neste domínio.

 

Quem o viu e ouviu e quem o ouve e vê!

 

 Na campanha eleitoral anterior para a Presidência, defendeu a cooperação estratégica com o Governo (ou seja, uma visão intervencionista da função presidencial na política governativa), e apresentou-se como salvador da nação. Tem passado estes anos a valorizar a sua preparação de economista e o seu contributo para resolver os problemas do País.

 

Agora, quando a crise aperta e já há incêndio no telhado, a culpa é dos outros, ele não tem nada com isso. Mas não foi sempre assim?

 

Por uma vez, e recusando absolutamente a anedótica e insensata comparação de Teresa Caeiro (aquela senhora que, na formação do Governo de Santana Lopes em 2004, antes da posse estava indicada para Secretária de Estado no Ministério da Defesa e acabou Secretária de Estado das Artes e Espectáculos no Ministério da Cultura, mostrando uma improvável polivalência) que, em manobra de diversão sobre a relação de Cavaco com o BPN, resolveu criar um "caso" com um trabalho literário de Manuel Alegre utilizado numa campanha publicitária do BPP, vale a pena comparar o comportamento arrogante, imperial e fugidio do candidato Cavaco Silva com o comportamento sério e frontal de Manuel Alegre, na sua esclarecedora entrevista de ontem à Antena Um (que vale a pena ouvir aqui) e o modo como assumiu e esclareceu um erro de circunstância, assumindo a natural contingência da condição humana.

 

De facto, o País precisa na Presidência de alguém humano, profundamente humano. Não é o caso de quem está convencido que nunca se engana, raramente tem dúvidas, tem uma visão paternalista da política e do poder e se afirma o mais sério da sua rua, sem para isso assumir a prova dos factos.

Henrique Sousa às 01:25 | link do post | comentar