As presidenciais e o discurso da direita neofascista (Público, 31.12.10)

Ou a esquerda perdeu definitivamente as suas defesas ou é o clima instalado, de desgaste e saturação dos valores democráticos, que começa a instigar os novos arautos da direita proto-fascista do século XXI. Seja como for, estamos num ponto de indefinição e de viragem particularmente preocupante. Mas as épocas de crise têm pelo menos o condão de demarcar posições e separar as águas. A actual contradição não é apenas entre a esquerda e a direita, mas também entre a memória e o esquecimento e entre o futuro da democracia e o regresso ao elitismo fascizante. O momento crítico que se vive na Europa não se compadece com a atitude persecutória dos que, além de não possuírem nenhum passado político já se arrogam o direito de agredir e julgar na praça pública os que lutaram e arriscaram a vida para nos devolver a liberdade.

 

Vem isto a propósito de dois artigos de opinião de Rui Ramos (RR) e Henrique Raposo (HR), publicados no jornal «Expresso» (18/12/2010), qual deles o mais agressivo e demagógico no branqueamento do salazarismo e no desrespeito perante quem corajosamente lhe resistiu. Não por acaso, o ataque é contra Manuel Alegre. Falar do passado, ou melhor, ter um passado e assumi-lo torna-se, na linguagem destes fazedores de opinião, a “exploração comercial da mitologia antifascista” (RR), enquanto se considera que “às portas de 2011” (sic) lembrar o salazarismo, a PIDE ou o antigo regime é qualquer coisa de absurdo, e de todo incompatível com “as ideias europeias de 2010” (HR). Na mesma linha doutrinária, uma outra pérola de RR é-nos oferecida no mesmo jornal (Expresso, 23/12/10) com a demonstração de que as leis laborais foram concebidas para “expropriar os proprietários” quando, segundo este “expert” em direito do trabalho, o que é preciso é deixar de ver “a propriedade como um crime” e “tratar as partes contratantes como iguais”. Perante isto, até Belmiro ou Amorim, que reconhecem direitos aos trabalhadores, parecem autênticos gonçalvistas (!) e a Alemanha, a França ou os países nórdicos são concerteza países comunistas. Eis uma “questão ideológica” que faria inveja a António Ferro.

 

Por outro lado, não sei o que sejam as “ideias europeias de 2010”, de que fala HR. Primeiro, porque foram as ideias e as políticas dominantes na Europa e o modelo neoliberal que nela vingou nas últimas décadas que conduziram ao estado em que estamos; ou seja, como toda a gente sabe, o que infelizmente se assiste na Europa actual é ao bloqueio de soluções democráticas para a UE e ao reforço do autoritarismo do mais forte (a Alemanha). Segundo, porque, as propostas alternativas ao paradigma dominante competem com as forças ultraliberais e alguns genes autoritários adormecidos que parecem querer despertar no actual cenário de crise. As novas ideias europeias que precisamos devem ajudar-nos a que o passo seguinte seja em prole do progresso, da igualdade, da coesão e da justiça social e não do retrocesso a uma matriz conservadora e liberal. Seria cómico se não fosse trágico. O “provinciano complexo” de inferioridade da direita (pelo menos de uma certa direita) está a promover o clima populista e o “vazio ideológico” que pode fazer ressurgir a mais perigosa das ideologias: abrir o campo a um novo “salvador” pretensamente imune às ideologias. O povo tem memória. E a memória colectiva tem de permanecer no debate público.

 

Mas, o que é especialmente inquietante é que a campanha em curso de ataques soezes contra Manuel Alegre, como é o caso destes, tem como objectivo não apenas branquear a importância do nosso passado histórico recente, mas igualmente estender a passadeira ao candidato Cavaco Silva, o economista e ex-Primeiro Ministro cujas responsabilidades políticas no processo português de adesão à UE devem ser lembradas (no momento em que assistimos ao seu falhanço). É como se possuir uma trajectória pessoal de combatente pela democracia e pela liberdade tivesse, de repente, passado a constituir um estigma inaceitável. É como se não possuir qualquer passado de luta tivesse, de repente, passado a constituir o acréscimo de autoridade para que a eleição presidencial se torne um passeio, um mero acto burocrático ou plebiscitário.

 

A um mês das presidenciais não há prognósticos credíveis, tal como não os há quanto às prováveis rupturas e viragens que se adivinham na Europa e no mundo. Mas, o discurso demagógico destes pregadores – que não tiram da cabeça os pesadelos do PREC – prova que os clichés e radicalismos do passado estão a renascer das cinzas e revela bem as obsessões fantasmagóricas da direita neofascista.

Elísio Estanque às 23:26 | link do post | comentar