Remendos e Côdeas

Há fome em Portugal. Quando a realidade se nos apresenta assim, como um murro, é difícil elaborar raciocínios que nos permitam ver o fenómeno com algum distanciamento crítico. Porque distanciamento é tudo aquilo que não se consegue ter quando o que está em causa é garantir a sobrevivência. O problema é quando os restos dos restaurantes aparecem a fazer a vez do Estado Social, substituindo a lógica da solidariedade e da efectivação dos direitos por um modelo caritativo entendido como o paliativo possível nestes tempos de crise.

 

A presença do actual Presidente da República na sessão de apresentação da campanha "Direito à Alimentação", no Estoril, reforça essa leitura. Cavaco falou aí do "dever moral" que constituía o combate a este "flagelo", o que é uma formulação que merece toda a concordância. Mas já que se pretende falar de pobreza, não seria também importante ouvir Cavaco falar dos cortes no abono de família, no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nas bolsas de estudo? Ou comentar as propostas de revisão constitucional do seu partido, que apontam para a privatização da saúde e da educação? Ou confrontar os economistas da sua Comissão de Honra com a defesa do corte nos ordenados e de políticas recessivas que conduzem e conduzirão a mais desemprego? Ou questionar a insensibilidade dos patrões quando afirmam não existirem condições para cumprir o que ficou acordado em sede de concertação social, ou seja, o aumento do salário mínimo para 500 euros? Ou comentar a crescente desigualdade de rendimentos no país?

 

A luta contra o desperdício alimentar - como contra qualquer tipo de desperdício - é virtuosa em si mesma. Mas entendê-la como solução para os problemas da pobreza é optar por fugir àquelas questões, as que verdadeiramente traçam uma linha divisória entre quem defende a justiça social e quem defende a caridade empresarial. Ao contrário do que se depreende pelo título da iniciativa apadrinhada por Cavaco, esta não visa concretizar o "Direito à Alimentação" dos portugueses. "Direito à Alimentação" - como recentemente afirmou Bruto da Costa ao DN - é dispor da liberdade de comprar e escolher os alimentos que se vão ingerir. E também não se trata de "combater a pobreza": essa combate-se recusando a dependência e valorizando o Estado Social.

Miguel Cardina às 23:31 | link do post | comentar