Chiu, façam de conta

A expectativa dos portugueses não era que os invectivassem, quando exigem dos governantes que enfrentem os mercados

Durante a ditadura, a oposição ao governo fosse ela por palavras ou actos era severamente punida, indo da tortura e prisão à interdição do exercício de funções públicas. Esta foi a regra que vigorou durante quarenta e oito anos. A censura circulava impune nas redacções dos jornais, os informadores faziam horas extraordinárias nos cafés, nas universidades, nas repartições públicas, nas fábricas, nas bancadas dos estádios de futebol, nos transportes públicos, os esbirros da polícia política prendiam, seviciavam, matavam. Receava-se até sussurrar. Passados trinta e seis anos sobre o derrube das condições políticas que colocaram os portugueses no fim da linha do desenvolvimento económico, social, cultural e político, um Presidente da República, o mesmo que num debate de campanha eleitoral afirmou que alguém teria de nascer duas vezes para ser mais honesto do que ele, dirigindo-se aos seus compatriotas durante a época natalícia exigiu-lhes que se calassem, que não atiçassem a ira dos mercados, porque o nosso futuro estaria na suas mãos, na volatilidade dos seus estados de alma, na ganância da banca e dos patrões da alta finança. Não os insultem, disse ele, sejam submissos, procurem passar por entre os pingos das suas exigências, porque os mercados são entidades com ouvidos particularmente sensíveis, gente habituada às boas maneiras, com uma educação esmerada, que aprecia ser reconhecida pelos serviços prestados às economias mais debilitadas.

 

O Presidente da República que assim fala é o mesmo que agora se recandidata para um mandato de mais cinco anos e que entre apelos à caridade e esgares de comiseração pelos pobres e deserdados aponta o dedo e envia raspanetes a todos os que se indignam, denunciam e não querem submeter-se à ditadura dos usurários. Sem uma alternativa ao corte nos vencimentos, ao congelamento das pensões, ao aumentos dos impostos, à diminuição dos apoios sociais, este Presidente da República o melhor que conseguiu propor aos portugueses até agora é a rendição aos especuladores, a submissão à voracidade da Fitch e da Moody"s, a aceitação do KO do Estado social. A austeridade desigual é para o Presidente da República a ordem natural das coisas.

Cipriano Justo

 

A expectativa dos portugueses não era que os invectivassem, quando exigem dos seus governantes que enfrentem o lado negro dos mercados financeiros, com o Presidente da República na primeira linha desse combate. Por exemplo, que até 23 de Janeiro tenha um gesto, mas também uma palavra, junto dos seus homólogos europeus, exigindo-lhes um outro sentido de responsabilidades, quando alguns países passam por dificuldades financeiras. Lembrar-lhes, por exemplo, aquele poema de Bertolt Brecht, "primeiro levaram os comunistas/ mas eu não me importei/porque não era comigo. / Em seguida levaram alguns operários, /mas a mim não me afectou/porque eu não sou operário. /Depois prenderam os sindicalistas, /mas eu não me importei/ porque nunca fui sindicalista. / Logo a seguir chegou a vez/ de alguns padres, mas como/nunca fui religioso, também não liguei. /Agora levaram-me a mim/e quando percebi, /já era tarde." E dizer-lhes que, se não fizerem nada, a vez deles também há-de chegar.

 

Cipriano Justo

o Público – 2011.01.16

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