Beneficium Accipere Libertatem est Vendere

 

 

 

 

A origem da palavra confiança - transformar fibra em fio - remonta a uma época em que fiar era tarefa assaz difícil, executada em grupos que exigiam sinergia, espírito de equipa  e colaboração de cada uma das partes. A confiança assenta numa relação bilateral de carácter incondicional suportada pela original crença conquistada através de um registo perene de atitudes justificativas de semelhante manifestação de fé na praxis alheia. A ingenuidade não é, todavia, timbre deste valor, que cedo se desvanece, perante qualquer facto, atitude ou incoerência que comprove o erro da original crença.

 

A credibilidade é um valor conquistado quando determinado sujeito faz com que a comunidade em que se insere acredite na sua palavra a partir da sua reputação. A credibilidade é lógica, unilateral, racional e surge a partir de indicadores mensuráveis sobre o objecto ou sujeito específico no qual se pode ou não acreditar, tendo por base a percepção que se tem do referido sujeito e respectivas atitudes, palavras e acções.

Tanto a confiança, como a credibilidade, são conquistadas diariamente a partir de requisitos e acções que denotem integridade, demonstrem coerência entre prática continuada e matriz axiológica apregoada, transpirem competência e afirmem cabalmente o cumprimento de compromissos. A confiança é intrínseca e subjectiva; a credibilidade manifesta-se de modo extrínseco, directo e  é facilmente mensurável, devido ao seu carácter concreto e factual. Confiança é um sentimento construído gradualmente e num círculo restrito, tendo como consequência e desiderato o apaziguamento de espírito, extensível a todos os interlocutores, ou a uma grande maioria deles. Credibilidade é um valor factualmente sedimentado, racionalmente intuído e tranquilizador de todos aqueles que se encontram na dependência de determinado sujeito. Em suma, ambos os valores são requisitos essenciais para a aceitação minimamente generalizada de qualquer liderança. São condições sine qua non para o exercício das funções de chefe de estado em qualquer país. Mesmo em Portugal.

 

Independentemente dos resultados eleitorais  do próximo dia 23, existe um facto incontestável que resulta das “recentes” (e “baixas” e “vis”...) descobertas sobre as relações perigosas entre o ainda Presidente da República e a instituição travestida de banco, cujo acrónimo me recuso a escrever: o processo que conduziu Cavaco à posição de accionista da SLN, para além de se revelar altamente lesivo dos interesses económicos da referida sociedade, permitiu à entidade bancária, cujo acrónimo não ousamos referir, adquirir uma imagem de credibilidade e respeitabilidade perante o mercado. A aura de respeitabilidade institucional, motivada por este e por outros casos de semelhante estirpe, permitiu à anterior administração prosseguir com a política de investimentos ruinosos que conduziu, em última análise, à situação actual.

 

A aversão e o incómodo que o caso trouxe às hostes cavaquistas são reveladores da ausência de substrato transcendente aos dois valores acima enumerados, que têm constituído o cerne do mito cavaquista, de há três décadas a esta parte. Ao contrário do que afirma, Cavaco sabe que as memórias do seu consulado em São Bento não são particularmente caras à generalidade dos portugueses e o nervosismo latente resulta do esvaziamento da última fundação que sustentava a sua imagem professoral, lembrança de estados de espírito anacrónicos e que urge debelar da sociedade portuguesa. A confiança na consciência do eleitorado português mantém viva a chama de quem acredita numa personalidade diferente e consciente das dificuldades do cidadão médio para ocupar o mais alto cargo da nação. A solidariedade, a coerência e a firmeza de Manuel Alegre são imprescindíveis para Portugal. A perfeita tempestade que se apresta a tomar Portugal de assalto requer uma liderança impoluta, de confiança e credível. A escolha é óbvia, o mito morreu.

Daniel Martins às 12:58 | link do post | comentar