Cavaco e Alegre: entre a continuidade e a oportunidade de mudança

Atravessamos tempos de mudança. Aconteça o que acontecer no futuro mais próximo, a reconfiguração da Europa que hoje conhecemos é inevitável. Os resultados da cartilha económica aplicada à Grécia e à Irlanda (e que obstinadamente ameaça impor-se a outros países periféricos, como Portugal) conduzirão a um de dois cenários: o enfraquecimento (na melhor das hipóteses) do projecto europeu (com o estreitamento da zona euro); ou uma reinvenção da governação económica da Europa, capaz de reforçar o princípio do interesse comum e da coesão, e de pôr um fim à inconcebível subjugação dos Estados aos interesses especulativos dos mercados financeiros. Como certo temos, apenas, que não é possível prolongar indefinidamente o abismo austeritário, a cura de recessão com mais recessão.

 

O que está em jogo no dia 23 é, por isso, a escolha de um presidente consciente do "espírito do tempo" e dos dilemas que o mesmo comporta: a escolha entre a continuação da agonia (até ao colapso) e a consciência da oportunidade de mudança que a crise contém.

Por um conjunto muito simples de razões, o economista Cavaco Silva não é, decididamente, esse presidente. Acredita, apesar de toda a evidência acumulada, que a saída da crise está na prossecução do suicídio austeritário. Venera, com viscosa obediência, os ditames dos mercados financeiros (não sendo sequer capaz de neles distinguir o rosto da especulação, contrário aos próprios interesses do capital produtivo). Acolhe, convicta e complacentemente, o Cavalo de Tróia da destruição do Estado Social e dos serviços públicos, apresentando-se como uma espécie de provedor - em Belém - das Instituições Privadas de Solidariedade Social. Rodeado por acólitos das terapêuticas recessivas, o situacionismo, a passividade e a continuidade são o legado que podemos esperar de Cavaco. Um presidente integrado no regime económico vigente (o mesmo cidadão que se sentia “integrado no regime” político de Salazar), inapto, portanto, para lidar com a mudança.

 

Como refere André Freire em artigo hoje publicado, lembrando o caso do Presidente Lula (ex-operário e ex-sindicalista), para enfrentar os problemas com que nos deparamos não é preciso eleger um economista. Precisamos é de alguém capaz de pensar e agir perante os desafios, as injustiças e as contrariedades. De alguém que tenha consciência da natureza da crise e das formas de a superar. De alguém que saiba rodear-se de pessoas capazes de reflectir para lá das fronteiras do pensamento único, para lá dos limites da fracassada (e ruinosa) ortodoxia económica. De um presidente que saiba que as soluções se constroem em diálogo, capacidade crítica e abertura de pensamento. Esse presidente é Manuel Alegre e a sua eleição constituirá um importante sinal para os tempos próximos.

Nuno Serra às 19:11 | link do post | comentar