Belém e o eterno retorno dos sonhos

Recordo-me bem da efervescência cívica e política causada pela candidatura de Alegre, entre o ocaso de 2005 e os primórdios de 2006. Foram meses buliçosos e de esperança. Esse período reivindica perenidade no alforge das melhores recordações. Não obstante erguer a divisa da cidadania, indissociável da política, há muito tempo, a primeira campanha presidencial de Alegre solidificou a crença na possibilidade de fomentar debate político figadal em Portugal. A História do Século XX português saberá elevar a odisseia Alegre ao patamar das causas que regeneraram a política portuguesa.

Então, como hoje, acompanho Manuel Alegre com orgulho e esperança. Se reconheço que Alegre não corporiza o perfil que mais se coaduna com o exercício do cargo de primeiro-ministro, é indubitável, para mim, a simbiose plena entre as exigências de Belém e a mundividência de Alegre. Sem escamotear os méritos de Mário Soares e de Jorge Sampaio, acredito que Alegre, uma vez eleito, saberá trilhar o caminho que desemboca no ancoradouro onde a História protege  herança dos grandes.


Em criança, lembro-me de ouvir um nome que, por alguma razão, me fazia tiritar. Era um nome gutural, quase fúnebre. Não tenho memória vivencial da figura, mas ganhei memória histórica. Quando alguém pronunciava esse nome, irrompia um silêncio inexpugnável. Na cataquese, aprendi que não se deve invocar o nome de Deus em vão, pelo que forjei uma relação espúria entre um homem que veio das profundezas do país e a entidade que vive nas profundezas do Homem. Mais tarde, soube que o homem não era santo nem infalível, apesar de se apresentar como figura salvífica. Era um professor de Finanças e urdiu uma imagem beatífica cujo bolor ainda se esconde nos interstícios do país. Esse professor não discutia Deus, não discutia a Pátria e não discutia a família, numa síntese aparentemente anódina que significava isto: comigo, nada se discute. Hoje, ouve-se com insistência: “o Presidente não comenta, o Presidente não responde, o Presidente não discute.”

Eu não quero um Presidente demiúrgico. Quero, em Belém, um homem, necessariamente falível, com um sólido conceito de Portugalidade e paladino da Língua Portuguesa como veículo da intemporalidade da sua terra-mãe. Quero um Presidente que exerça o cargo com desassombro, sem receio de hostilizar bases de apoio por mera estratégia eleitoralista. Quero um Presidente que nutra a discussão, sem se refugiar em mensagens furtivas à Assembleia da República, quando promulga uma lei, mas dela discorda. Quero um Presidente que garanta o respeito pelas minorias políticas na Madeira, minha terra, sem se amancebar com a pútrida realidade política que aqui vigora.

Acusam Manuel Alegre de ser um mero romântico. O romantismo doseado nunca foi nocivo e as actividades humanas, como a política, não estão destinadas a uma fatal aridez. A política também é feita de sonhos. Hoje, como em 2006, é possível. Portugal merece, em Belém, um homem que contempla o Tejo e sabe que, daquelas águas, partiram homens que nenhum Adamastor atemorizou. Porque o que faz falta, meus amigos, “é avisar a malta”.

Vítor Sousa às 00:35 | link do post | comentar