Olhar a crise de novo, agora olhos nos olhos

Quando insisto tanto na dimensão cultural e artística que é preciso trazer para a nossa vida, e a política faz parte da nossa vida, muitas vezes perguntam-me o que é que eu quero dizer com isso, já que encaramos demasiadas vezes a cultura  e a arte em função do mercado dos objectos (os livros, as músicas, as imagens, animadas ou não, as esculturas, etc) que criamos e muito pouco nesse trabalho de vaivém identitário que resulta de brincarmos a esse jogo de possíveis em que se constitui a experiência artística.

 

Ora é fundamental trazermos esta experiência da possibilidade para a nossa vida. Temos de dizer a nós mesmo que podemos viver de outra maneira. Que podemos tomar as nossas decisões de outro modo. Que podemos envolver a comunidade de uma outra forma. O grande drama que vivemos, e que poderá ter contornos trágicos, é que esta clima psicodramático em torno da crise tem como primeira consequência diminuir-nos as possibilidades de acção.  Já o esmiucei de outra forma noutro sítio. Cria-se um clima de terror e de desmembramento do mundo senão agirmos logo e não agirmos de uma determinada maneira. E quando mais discutirmos, mais terrível será. O pathos não admite hesitações. Perante o perigo sistémico, outro jargão da linguagem da crise, as várias economias suportaram preços incomportáveis. O Governo decidiu a nacionalização do BPN, Cavaco promulgou o decreto em 4 dias, o Banco de Portugal anuiu e hoje estamos a pagar, por muitos anos, um preço muito elevado sobre isso.

 

A questão não é tanto lançar culpas sobre o que foi feito mas fazer esta pergunta dramática: o que é que alterámos nos nossos processos de decisão, o que é que modificámos na forma de pensar no problema? Percebemos porque é que fomos atirados para um contexto tão restritivo de opções? É que enquanto não fizermos esse pequeno jogo dos possíveis continuamos reféns da mesma incapacidade de agirmos fora do restrito espaço de decisão que nos resta. Manuel Alegre é aquele que para mim melhor tem assumido esta possibilidade de uma confrontação com os valores especulativos que alteraram de forma drástica o mundo em que vivemos.

 

Quando começou o discurso sobre a crise, eu comecei a escrever, não sem alguma provocação, admito, que a crise só era má para aqueles que pensavam que estávamos bem. Para aqueles que como eu pensam que estávamos mal, a crise é uma oportunidade. Esclareço que a minha ideia de que está mal não se limita a uma visão mais ou menos doméstica da questão. O nosso mundo sofre de falta de comprensão global dos problemas, de falta de solidariedade. Ninguém  pode ser - pelo menos os europeus têm, felizmente, grande dificuldade em sê-lo - verdadeiramente feliz neste mundo enquanto achar pretensamente natural que a nossa paz europeia seja construída à custa da exportação da guerra, da miséria e da fome para o recôndito dos lugares (mas, não me canso de o repetir, o recôndito dos lugares não existe na nossa era global). Se pensarmos assim qualquer crise é uma oportunidade de se reverem as situações e de se criar uma consciência de mudança.

Ainda agora ao olhar para  Prós e Contras e olhando aquela plateia, e principalmente a dramaticidade da apresentadora, pude perceber o quanto estamos melhores hoje do que ontem. Os nossos indicadores financeiros e económicos estão de rastos, é certo. Mas ontem estávamos menos conscientes de que temos de mudar algumas coisas na nossa vida. Há uma dimensão individual nisso também. Mas o mais importante,  temos de mudar colectivamente: a esquerda, os valores da esquerda chocam com os valores da desregulação criminosa a que a última década assistiu e a esquerda tem de passar por ser capaz de ver para além das representações político partidárias, dos interesses instalados,  das representações cristalizadas. O seu único dogma é, tem de ser, solidariamente contra a exploração do homem pelo homem.

 

Há um problema nesta forma de ver as coisas: só estamos melhores hoje se a nossa decisão for mudar. Se a nossa decisão for inverter a tendência psicodramática e dizermos, numa comunidade maior, a Europa, que ou ela toma as medidas para se proteger e ser solidária, ou acabará por destroçar-se.  Se a nossa decisão for ficarmos muito quietinhos à espera do que nos possa acontecer os mercados chamam-nos uma nêspera. Eleger um presidente da república não é a mesma coisa do que construir um altar a um santo milagreiro. É estabelecer um pacto, para uma jornada. Escolhemos um candidato não apenas por aquilo que ele é. Também por aquilo que com ele desejamos poder ser. Eu gosto de pensar que seremos alegremente capazes de, ao superamos esta crise, sairmos dela mais fortes.

Joaquim Paulo Nogueira às 01:26 | link do post