O que está em causa no dia 23

Cavaco sabe que de cada vez que abre a boca perde votos. Os últimos dias de campanha têm sido claros a esse respeito. Daí que se perceba de certa maneira esta fuga a uma entrevista à Antena 1. Pressentindo a possibilidade de uma segunda volta, o candidato do PSD e do PP tem vindo a dramatizar crescentemente o tom da campanha. Uma estratégia que se tem desenvolvido em torno de dois planos distintos mas convergentes.

 

O primeiro é o recurso à vitimização, próprio de quem se julga desobrigado de qualquer tipo de exame público. Ficámos sem perceber porque Cavaco comprou acções ao preço que só Oliveira e Costa podia comprar. Ficámos a saber que Cavaco passa férias com os homens fortes do BPN, entre os quais Oliveira e Costa e Francisco Fantasia, numa casa da qual não se recorda onde e quando fez a escritura. A esse escrutínio de amizades nebulosas tecidas em contexto político Cavaco chama "ataques de vil baixeza". Felizmente, neste caso da Aldeia da Coelha, Cavaco Silva já afirmou que dia 23 de Janeiro lerá as notícias e dará explicações. Aí está um motivo adicional para o país querer um segunda volta.

 

O segundo eixo da estratégia do candidato da direita passa pelo recurso continuado a afirmações de teor populista. O episódio recente em torno da pensão da sua mulher é revelador, tal como antes já havia sido revelador o apoio sonoro à campanha das sobras dos restaurantes ou o discurso de esmoler em Almada. Abordado por uma senhora que se queixava da sua parca reforma, Cavaco apontou para a mulher, referiu a sua pensão de 800 euros e informou que é ele que a sustenta. Os jornalistas esqueceram-se de perguntar à senhora qual o valor que mensalmente auferia, para que pudesse haver comparação. E também de aferir o estranho percurso contributivo da "mísera" professora universitária que ao fim de uma vida de descontos possui apenas aquele estipêndio. Cavaco, o homem que nesse dia elogiou o "povo simples" e dele disse fazer parte, esqueceu-se que o salário médio em Portugal não chega a esse valor e que um milhão e meio de pensionistas sobrevive com menos de 450 euros.

 

Este exercício de confronto entre o discurso e a realidade pode multiplicar-se e os seus resultados são esclarecedores. Assim, Cavaco, o homem que era primeiro-ministro quando ocorreram as célebres cargas policiais a estudantes, operários e utentes da Ponte 25 de Abril, e que se calou durante as manifestações de professores em 2008, incita agora os jovens a virem para a rua defender a "sua escola". Cavaco, o homem que tranquilizou a embaixada norte-americana quanto à "suavidade" da comunicação social portuguesa, fala em comício de uma suposta ausência de imagens sobre a sua campanha. Cavaco, o homem que anseia jurar a Constituição, tem palavras dúbias no seu manifesto eleitoral sobre o Serviço Nacional de Saúde. Cavaco, o homem que se vangloria de ter servido como intermediário do acordo PS / PSD para aprovação das medidas de austeridade, critica agora o esforço isolado imposto aos funcionários públicos, deixando no ar um silêncio subtil sobre a vontade de expandir os cortes salariais ao sector privado.

 

Mas o que está em causa no dia 23 não é apenas a necessidade de derrotar nas urnas o perfil seráfico e dúplice de Cavaco. É bem mais do que isso. É o confronto entre uma visão assistencialista do papel do Estado, reverente perante os mercados e a finança, e uma visão assente no conteúdo social da democracia, que encontra substância na candidatura de Manuel Alegre. Apesar de contar com o PS na sua lista de apoios, Alegre soube afirmar uma voz própria, frequentemente crítica do rumo governamental, e mostrou-se capaz de federar a esquerda - numa primeira ou numa segunda volta - em torno desta batalha concreta para um cargo que é unipessoal. Se Cavaco ganhar à primeira volta, estaremos a abrir caminho a um novo ciclo de hegemonia da direita que - com ou sem o FMI no país para ratificar as suas opções - não se coibirá de realizar um programa político privatizador e socialmente iníquo. Se Alegre passar à segunda volta, não só tem hipóteses de vencer com o apoio dos restantes candidatos de esquerda, como estaremos melhor preparados para construir uma necessária alternativa política e social para os tempos que aí vêm.

Miguel Cardina às 15:31 | link do post | comentar