Da integridade política que se espera de um presidente

Disse Cavaco Silva, na primeira intervenção do debate com Manuel Alegre: “Há aqui um ponto prévio, porque o doutor Manuel Alegre, durante pelo menos 50 vezes, me acusou de destruir o Estado social. E é uma afirmação falsa, sem qualquer fundamento. Eu tenho que demonstrar hoje, aqui, que ele andou a enganar os portugueses”. Mais tarde, abordado por uma mulher que se queixou de não ter dinheiro para alimentar o filho, o candidato recomendou: “vá a uma instituição de solidariedade que não seja do Estado". Em Aveiro, ao encontrar manifestantes que, à boleia da questão dos cortes nos contratos de associação, defendem o cheque-ensino, o ainda presidente considerou importante que «crianças, jovens, pais e professores venham para a rua para defender a sua escola» (palavras que nunca os estudantes do ensino público tiveram o "privilégio" de ouvir da boca de Cavaco).

 

O que mais "incomoda" em Cavaco Silva não é propriamente o seu entendimento acerca do Estado, da protecção social e dos serviços públicos (entendimento que é tão legítimo em democracia como o seu oposto). O que o verdadeiramente o desqualifica enquanto candidato à presidência da república, a par dos silêncios convenientes e das fugas ao debate democrático, é a mais despudorada falta de integridade para assumir ideologicamente – perante os eleitores – o que realmente pensa. Quem anda, afinal, a tentar enganar os portugueses?

Nuno Serra às 03:05 | link do post | comentar