O medo como arma política

 

 

Cavaco Silva, temendo o resultado de uma segunda volta, inventou dois novos argumentos que têm como denominador comum a pressão do medo sobre os eleitores:

 

- Esgrime  mentirosamente o papão dos mercados financeiros e do risco de elevação das taxas de juro se houver segunda volta e se não for eleito, quando antes pediu respeitinho pelos mercados financeiros no debate público das medidas anti-crise para não os ofender, pois isso causaria subidas das taxas de juro da dívida pública. O que aconselharia, na mesma lógica, a contenção verbal que agora esqueceu.

 

- Agita demagogicamente os custos de uma segunda volta das eleições como incomportáveis para um País em crise. Mas sabe muito bem, como economista, que os poucos milhões de euros que custa uma segunda volta das presidenciais são uma gota de água no mar encapelado das dificuldades do País, comparados com o custo para os contribuintes do buraco de 5 000 milhões de euros que os seus amigos causaram com uma gestão danosa e mafiosa no BPN.

 

É verdade. A democracia tem custos. Mas é preferível à paz dos cemitérios das ditaduras. Votamos, escolhemos e sofremos as consequências das nossas opções. 

 

Só a pressa de assegurar o poder a qualquer preço, o pior eleitoralismo do "vale tudo", a exploração sem escrúpulos da ignorância política de alguns e do estado de alarme social motivado pela crise, podem explicar que um candidato use tais argumentos. Recorrendo ao medo como substituto da racionalidade do debate político e assim enfraquecendo uma democracia já erodida nos seus créditos pelo bloco central de interesses de que é padrinho há muitos anos e pela promiscuidade a que não é alheio entre política e negócios.

 

Como lucidamente caracterizou ontem Manuel Alegre, "o principal activo político de Cavaco Silva é o medo que ele próprio inculca aos portugueses".

 

Não deixemos que o medo vença a cidadania nestas eleições!

 

 

Henrique Sousa às 23:33 | link do post | comentar