Patriarcado ou conservadorismo primário?

A passagem abaixo não poderia evidentemente passar despercebida a ninguém. Porque, mais do que o discurso preparado e retocado dos candidatos, é sobretudo aquilo que se deixa escapar com a naturalidade descuidada da ignorância, no fluir de uma conversa, que se torna significativo e revelador. Foi o que aconteceu nesta intervenção. Cavaco sabe (tal como os outros) que precisa de se dirigir a segmentos especificos da sociedade e um deles são as mulheres. Mas a forma como o presidente em exercício faz referência à condição feminina denuncia, de forma clara, a sua perspectiva acerca do papel da mulher na sociedade. Para CS esse papel resume-se a "um pilar da família", à sua acção de "protecção das crianças" e a "fazerem milagres com o orçamento limitado da casa". Com esta visão se torna clara, desde logo, a mentalidade arcaica do Presidente acerca da sociedade. Mas revela também a sua insensibilidade e a sua falta de cultura.

 

Num país em que as mulheres possuem uma elevada empregabilidade, mas também onde elas são vitimas de discriminação, estando em maior número no desemprego e nos sectores mais precários, são segregadas no acesso a posições de chefia e recebem salários inferiores aos homens (para tarefas iguais) em cerca de 30%; considerando os licenciados que trabalham, as mulheres recebem em média metade dos salários dos homens. Sim, é  verdade: são elas que ainda tomam conta dos filhos, se encarregam das questões esclares e da sua saúde (assim como executam a maioria dos trabalhos domésticos; e a esta realidade pode somar-se o drama da violência doméstica contra as mulheres, que ocorre diariamente em muitis lares portugueses). Porém, é isso que devemos combater (e não justificar ou defender) em nome da emancipação da mulher!

 

De facto, é essa dura realidade que se esconde por detrás da imagem alinhada, sofrida, sacrificada e coitadinha atribuida à mulher portuguesa ao longo do Estado Novo. O velho estereotipo do «doce lar» que durante muitos anos alimentou essa fantasia da mulher enquanto "fada do lar", a incansável e submissa companheira que deveria velar pela limpeza da "casa portuguesa concerteza", limpinha, arrumadinha e ordeira, sob a autoridade do "ganha-pão".

 

Fica, portanto, muito claro qual é o conceito de "mulher" e de "família" do actual Presidente.

 

Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, as mulheres portuguesas de hoje -- jovens, ou menos jovens -- nada têm a ver com aquela obsoleta "figura" feminina construída pelo ideologia autoritária e conservadora do salazarismo. Acredito, portanto, que o eleitorado feminino irá certamente punir um candidato que ainda transporta na cabeça uma ideia tão ultrapassada do papel da mulher. É essa mentalidade retrógrada que impede a mulher portuguesa de alcançar o reconhecimento e o protagonismo que merece.

Elísio Estanque às 21:58 | link do post | comentar