Quinta-feira, 20.01.11

1 Presidente, 1 Governo e 1 Assembleia

O sistema político português, e para além do das autonomias, autarquias e do poder judicial, foi concebido com um equilibrio muito especial entre a Presidência da República, o Governo e a Assembleia da República. Os constitucionalistas sabem-no de uma forma muito precisa, os cidadãos têm disso uma consciência quase intuitiva. O grande lema que já está interiorizado em qualquer presidente é, "sou o Presidente de todos os Portugueses". Independentemente da base de apoio eleitoral que suportou as suas candidaturas Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e o próprio Cavaco Silva, acabaram, de uma forma ou de outra, por serem alvo, enquanto presidentes, da tolerância e da aceitação da maioria dos portugueses. Curiosamente  Jorge Sampaio teve mais problemas com as suas bases de apoio, do que com aquelas que suportaram eleitoralmente os seus adversários. 

 

É por isso que a reeleição de um presidente em exercício tem sido, desde o 25 de Abril, um dado quase adquirido e até um factor de alguma coesão nacional. Excepto com Cavaco Silva.  Não há memória de um presidente que tenha descaracterizado de modo tão grande a sua base de apoio inicial e que não tenha conseguido granjear apoios em sectores políticos que não são os seus apoiantes tácitos de sempre. E isto por uma razão muito simples: Cavaco Silva foi de facto um mau presidente da República, que raramente tomou posição sobre alguma coisa; que se refugiou em conceitos de uma grande opacidade política. Que se meteu em coisas, como o caso das eventuais escutas e vigilância ao seu correio electrónico,  que só evidenciaram que ele não está ainda bem no século XXI; que deixou arrastar demasiado tempo a demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado; que teve uma posição ridícula na morte de Saramago. E que demonstrou que ter em Belém um especialista em finanças não servia para coisa nenhuma que não fosse assinar de cruz numa proposta do Governo. Descontando desde já as manifestações de arrogância e inabilidade comunicacional que sempre o caracterizaram. Isto na lado visível da política. Porque os casos da SLN e o aldeamento da Coelha lançam, legitimamente, as maiores suspeitas sobre o lado invísivel do trabalho político de um conjunto de colaboradores políticos com quem Cavaco poderá ter continuado a ter relações de natureza financeira e comercial.

 

Nenhuma sondagem pode salvar o óbvio: Cavaco está em queda acentuada (caiu mais de 10 % percentuais) e poderá mesmo vir a ser obrigado a ir a uma segunda volta. Tudo depende da abstenção, do voto em branco. É por isso que o dia 23 é tão importante.

 

 

Joaquim Paulo Nogueira às 13:12 | link do post | comentar

"Isto só vai lá com uma revolução!"

"Isto só vai lá com uma revolução" ou, mais desconsoladamente, "isto só à bomba!" são frases que ouço com cada vez mais frequência.

 

Revolução? Já tivemos. Chama-se 25 de Abril, e até é feriado.

 

Agora, a única solução que nos resta é trabalhar. Arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Ir votar. Participar num partido. Inventar outro. Escrever cartas abertas aos deputados e aos ministros e ao presidente, exigir, pressionar, tudo o que quiserem - dentro dos limites democráticos.

Ou até criar um serviço de acompanhamento dos escândalos, ter sempre um ponto da situação actualizado. Porque - já repararam? - nós vamos vivendo de escândalo em escândalo, com a sensação que tudo fica em águas de bacalhau.

 

Há muito para fazer.

Mas a revolução, essa, já fizemos. Agora há que trabalhar, e muito, e sem descanso, para uma Democracia mais saudável.

 

Começando por isto: ir votar no próximo domingo.

Em vez de sonhar com revoluções e sebastiões.

Helena Araújo às 10:22 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 11.01.11

Esquerdas desunidas

 

Andam tantas almas ainda inclinadas para a abstenção por a esquerda apresentar vários candidatos na primeira volta das presidenciais, que o texto de Vítor Dias, abaixo transcrito, pode ajudar a desanuviar alguns céus demasiadamente enublados.

 

(O que não invalida o que eu ontem escrevi, num outro post: «Os que votarem em Manuel Alegre poderão fazê-lo por uma de duas razões: por considerarem que ele é o melhor de todos os candidatos em campo - e eu considero -, ou porque Cavaco entrará tanto mais fragilizado na segunda etapa da campanha quanto maior, na primeira, for a votação do seu único potencial adversário. E isso conta.»)

 

"1.«A «divisão» ou concentração de votos por candidatos à esquerda de Cavaco Silva não tem a mais pequena influência no resultado de Cavaco Silva e nenhuma influência sobre este ganhar ou não à primeira volta.

 

2. Este ganhará logo à primeira volta se receber 50% mais um dos votos, ou seja pelas cruzes que forem postas ao lado da sua fotografia no boletim de voto e não pela forma como se distribuem as cruzes por Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre.

 

3. Ou seja, nenhuma dúvida (até custa ter de explicar isto) de que votos em Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre são votos em Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre e não votos em Cavaco Silva, ou seja são votos que em nada favorecem a eleição de Cavaco Silva.

 

4. E, pronto, levando a caridade ao extremo, e descendo ao nível de escola primária cumpre ainda explicar que, por hipótese numérica, 47,3% num único candidato à esquerda de Cavaco Silva são, numa eleição presidencial, a mesma coisa que 47,3% resultantes da soma das percentagens obtidos por três candidatos à esquerda de Cavaco Silva.

 

5.Por fim, ainda poderia explicar que em casos, como é o presente, em que não há, nem de perto nem de longe, um real consenso político e social em torno de um só candidato, a existência de diversos candidatos à esquerda até será provavelmente um factor de maior comparência nas urnas dos eleitores de esquerda, o que não é nada dispiciendo (…)."

Joana Lopes às 17:10 | link do post | comentar

Combustão lenta

No rescaldo do primeiro dia oficial de campanha não posso deixar de reparar num certo número de afirmações, sendo que algumas delas me põem quase sem respiração!

 

Logo para começar fico sempre admirado quando vejo um gráfico de sondagem como o do Público de hoje. As perguntas eram: está interessado pelas Eleições Presidenciais? Vejam só as respostas: 10%, muito interesse; 30% algum interesse; 60% não interessado! Como é que num país em crise, onde toda a gente chora a sua má sorte (mesmo os que têm sorte a mais) ainda há 60% dos cidadãos que não estão interessados pelas Eleições Presidenciais? Constato que não são só os emigrantes que têm falta de educação cívica. Os primos que ficaram pela terra são feitos da mesma matéria! Que desespero!

 

Depois vêm os comentários dos candidatos e lá vêm as frases mais disparatadas, as maiores contra verdades, os cinismos, as malícias e as calúnias. Só porque as pessoas se desinteressam é que alguns políticos se podem permitir tais abandonos; se houvesse mais crítica, outro galo cantaria. Quando Fernando Nobre põe em pé de igualdade os candidatos Cavaco Silva e Manuel Alegre, para mim é como se estivesse a dizer ” estou aqui para atrapalhar (por encomenda?), pois de política não percebo patavina”. Cavaco dirige-se aos jovens para fazer uma política diferente, é claro que com o candidato da “estabilidade passiva” a política vai ser diferente, mas diferente daquela que devia ser. Diz ainda que não se deve desperdiçar o dinheiro que a Europa nos atribui. De acordo, acreditem na sua experiência, toca a continuar a alcatroar o país, que do seu tempo ainda ficou espaço para mais estradas e isso é obra que se vê! Mas além disto o presidente candidato a “bis repetita” não quer falar das escutas; não quer falar das acções; não quer falar do FMI... na realidade o melhor é ficar calado, disso tem ele dezassete anos de experiência.

 

Talvez Maria de Medeiros tenha razão, com tanto silêncio qualquer dia estamos todos sob o domínio da Espanha... quando não há Rei é o que acontece! Em 1984 alguém me disse, perante a minha apreensão “deixa lá com cavacos não se fazem grandes fogueiras”, mas não contava com a combustão lenta. Dezassete anos é muito tempo.

Aurelio Pinto às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 04.01.11

Brancos e nulos «não», abstenção «nunca»!

 

Já foi dito e redito, mas talvez seja o momento adequado para recordar que na Constituição se afirma expressamente que, em eleições presidenciais, os votos em branco não são considerados «validamente expressos» (Artº 126, 1), afirmação que vem confirmada no Artº 10 de Lei Eleitoral para o Presidente da República, actualizada em 2006.

 

Isto significa, concretamente, que «os votos em branco e nulos são excluídos do apuramento final dos resultados, chegando-se aos 100 por cento apenas com os votos expressos em cada um dos candidatos».

 

Assim sendo, e assumindo-se a possibilidade de um dos candidatos ser eleito à primeira volta (sejamos realistas…), não é necessário senão um exercício aritmético simples, que não faz mal nem aos que têm horror à Matemática, para se perceber que quanto menor for o número de votos «validamente expressos» daqueles que nunca votariam no referido candidato (ou seja, que não se abstêm, nem votam nulo ou branco), menor será também o que é necessário, por parte dos seus fieis seguidores, para chegarem a 50% mais um.

 

Concretizando e trocando por miúdos: se, «à esquerda», muitos se abstiverem ou votarem branco ou nulo na primeira volta (apesar do leque de candidatos disponível…), maior risco haverá de Cavaco, sem concorrência à direita, ser eleito em 23 de Janeiro. Portanto…

Joana Lopes às 22:37 | link do post | comentar | ver comentários (5)

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