Domingo, 23.01.11

Até amanhã, camaradas

Não há muito mais a dizer, a não ser felicitar democraticamente o candidato vencedor e a antever uma luta de esquerdas no campo sócio-político para breve. Por isso, deixo apenas um até amanhã e um abraço... justo e fraterno, é claro!

Cláudio Carvalho às 23:13 | link do post | comentar
Sexta-feira, 21.01.11

Dia 23 é já amanhã

 

O último post antes da 2ª Volta. Termino, espero que por agora, a minha participação neste blogue. Fui um companheiro de jornada relativamente curto, também porque recente foi a minha compreensão não só de que iria votar em Manuel Alegre, também da importância que a sua eleição tem para o nosso futuro próximo. Como escrevi, muito mais do que as suas muitas qualidades humanas, foi para mim decisivo o perceber o quanto pensar em Manuel Alegre na Presidência da República, me ajudava a imaginar no que gostava que fôssemos enquanto comunidade. Não escolhemos uma pessoa pelo que ela representa, ou representou, no passado, mas por aquilo em que queremos que ela nos represente, no futuro. Manuel Alegre fez muito bem em trazer até nós um contrato presidencial. Um contrato lembra-nos que há direitos e obrigações dos dois lados. É importante lembrar as obrigações que todos nós, enquanto primeiros outorgantes, o Povo, a Comunidade Portuguesa, assumimos. Quando escolhemos Manuel Alegre porque ele é capaz de unir a Esquerda à mesma mesa, também assumimos um compromisso, enquanto esquerda, de que seremos capazes de pensar juntos. Trazendo também para esse lugar de reflexão todos aqueles que já não se revêm na ideia de Esquerda, mas que partilham um mesmo ideário de justiça social, de papel do Estado na sua concretização. A esquerda não é um clube, é um ponto de partida.

 

Tentei durante esta semana, dar-vos conta das razões porque, para mim, se torna tão importante eleger Manuel Alegre.  Eu por exemplo, quando respondi ao desafio de escrever aqui, pensei que queria vir debater a importância que a cultura tem na mudança de atitudes e na compreensão do outro. E também, em dar o testemunho de alguém que durante quase toda a campanha pensou em votar em branco (e que mesmo assim acha que o sistema eleitoral deveria considerar o número de votos em branco dentro das opções expressas) e que percebeu, a uma semana, que não poderia deixar de votar em Manuel Alegre. Vejo que me ocupei muito pouco disso e mais em estabelecer ligações com a critica às  SLNs, aos BPNs, às Coelhas, centrando-me talvez mais numa irritação com aquilo que Cavaco Silva representa, do que com aquilo que Manuel Alegre me faz querer para o futuro. Alguns de vós vão por isso ler-me e pensar na fragilidade desse arrazoado e dai, tirarem a ilação de que são também frágeis as razões para votar em Manuel Alegre.

 

Será um erro para o qual, por dele me sentir responsável, vos devo alertar: não confundam a minha incapacidade de explicar as razões porque voto em Manuel Alegre, na vossa incapacidade - e dirijo-me a todos aqueles para quem a ideia de solidariedade na vida em sociedade ainda provoca alguma ressonância dentro dos seus imaginários - de encontrarem as razões para votar em Manuel Alegre.

 

O paradigma racionalista  leva-nos muitas vezes a um erro que pagamos demasiado caro nas nossas vidas: como tudo se passa na dialética discursiva, se alguém não souber explicar de forma suficientemente clara as razões porque tomou uma determinada decisão - neste caso a de votar em Manuel Alegre - deduzimos daí que não há razões muito claras para tomar essa mesma decisão. Ao ler o Público de hoje e a inúmera quantidade de pessoas que diz que esta campanha foi pouco esclarecedora, penso nisso. 

 

É tão difícil partilhar uma ideia que, como esta, nos tempos que correm, tem tanto de emocional como de racional e coloca a política numa dimensão da festa, da alegria.

 

Não haverá uma segunda oportunidade para o dia 23 de Janeiro de 2011.

 

Joaquim Paulo Nogueira às 23:59 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Boa-Nova da Trindade

  

 

Momento curioso da campanha. O cortejo estaca, ordenada e compenetradamente, por breves instantes para que os repórteres de imagem e os fotógrafos recolham as suas imagens. É preciso dar a notícia.

 

 

Joaquim Paulo Nogueira às 13:22 | link do post | comentar
Quinta-feira, 20.01.11

Em frente e depois, à Esquerda

 

 

Descia-se a Rua Nova da Trindade. Almeida Santos, António Costa, Maria de Belém, Carlos César, na primeira linha, marcavam a presença do Partido Socialista. No cortejo vi Garcia Pereira, vi Arnaldo de Matos (um dos cromos mais carismáticos da caderneta que comecei a fazer aos onze anos na minha Ludoteca de Abril). Vi um homem empunhando uma pequena tabuleta sobre uma esquerda socialista. No cruzamento, na Brasileira, o abraço a Francisco Louçã. O grande desafio da 2ª Volta é mesmo este, a forma natural e quase orgânica com que Manuel Alegre parece conseguir fazer com que a esquerda, sem grandes poblemas digestivos,  se junte numa mesma rua. Como que preparando o grande desafio do seu contrato presidencial, conseguir com que a esquerda se sente a uma mesma mesa e discuta, de A a Z,  o que pretende fazer para continuar a ser, no século XXI, a grande promotora de valores como a paz, a liberdade, a solidariedade e a fraternidade.

Joaquim Paulo Nogueira às 23:32 | link do post | comentar

O interesse nacional

Edite Estrela faz um apelo directo ao voto: "Sei que ainda há muitos indecisos na esquerda e que ainda há socialistas hesitantes. A uns e a outros eu digo que parem, pensem e decidam bem". Este é o momento de colocarmos os interesses nacionais acima dos pessoais". Depois acrescentou que "é preciso decidir com o coração e com a razão".

 

No discurso na Trindade, hoje, em Lisboa, Edite Estrela enumerou as razões para apoiar Manuel Alegre. "Portugal precisa de um Presidente de esquerda e solidário com o governo" e que "não fomente crises políticas artificiais". Uma referência às declarações de Cavaco Silva que na primeira semana de campanha eleitoral falou da possibilidade de haver uma "crise política" e ontem, acabou por dizer que "tinha pouco apetite para utilizar a bomba atómica", ou seja a dissolução da Assembleia da República.

Vera Santana às 15:51 | link do post | comentar
Quarta-feira, 19.01.11

Estabilidade, aquela morta morte dos cemitérios!

As mais recentes declarações de Correia de Campos ( independentemente do ressentimento que possam traduzir) ajudam a perceber exactamente o que está em causa nestas eleições: a estabilidade em que temos vivido até agora com os conceitos de cooperação estratégica (com o GPS um pouco danificado, como sugere o boneco de Luís Afonso) ou a instabilidade que resulta de tomarmos nas mãos a expressão do nosso destino. Eu creio que elaboramos muito acriticamente a ideia de estabilidade. Quando uma situação é negativa, estabilizá-la é prolongar os efeitos negativos da mesma.

 

Nunca me esqueço de uma vez, em Madrid, ter ido, com um dramaturgo amigo,  visitar José Monleón, grande amigo de Portugal, do teatro Português e essenciamente uma grande referência do mundo do teatro iberoamericano. Já estávamos de saída, o meu amigo pergunta-lhe:

- E então,a saúde? Tem estado estável?

Ao que ele, com aquele largo sorriso que o caracteriza, responde:

- A estabilidade é a morte. É a instabilidade que me permite manter vivo.

 

Desde essa lição de vida que valorizo muito mais aquelas experiências e aprendizagens que nos ensinam a lidar com a instabilidade, do que aquelas que, por um conceito errático de estabilidade pretendem perpetuar situações como as que nos trouxeram até ao lugar onde nos encontramos. Os cemitérios não estão só cheios de homens indispensáveis, como escreveu Brecht. Também de tédio e estabilidade. A estabilidade de Cavaco e Silva - e parece também a de Correia de Campos -  é a manutenção da situação, é no plano visível e explícito a política activa dos silêncios, dos não posso dizer, dos não tenho nada a comentar sobre, do não é a ocasião propícia para, do neste momento não é apropriado. Conjugado, no plano invísivel e subterrâneo, com a articulação nunca esclarecida com interesses lesivos à comunidade. É a estabilidade dos cemitérios (e dos covis).

 

Num mar agitado e de grandes vagas como é a tempestade onde estamos metidos, a estabilidade é uma mentira de quem não consegue arregimentar no sonho, na utopia, a coragem necessária. Nada mais desestabilizador do que a falácia política, o não falar o que se sente (ou deixar colonizar a voz pelo que se ressente).

 

Só a verdade nua e crua une verdadeiramente. E neste equilibrio institucional do nosso sistema constitucional, o Presidente da República, porque é aquele que é eleito por uma comunidade que sabe exactamente em que está a delegar a sua representação, deve ser capaz também de ser a voz da inquietação, do apelo, da convocatória, da esperança.

Joaquim Paulo Nogueira às 00:41 | link do post | comentar
Terça-feira, 18.01.11

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Já deixei aqui expresso o que penso sobre a crise financeira: quanto mais grave é, menos sentido faz assustarmo-nos com ela, já que o nosso susto inflaciona as taxas de juro e os especuladores mais especulam. Se não especulassem - como diria Pessoa -  não seriam especuladores. O susto também reduz as possibilidades de escolha. O afã especulativo não tem crises de identidade, feriados, folgas, dias santos. E também: quanto menos formos capazes de resgatar a nossa vida à dimensão financeira, menos vida temos pela qual lutar.   

 

Não é que acreditar num país, o nosso país,  seja como fazer bluff numa qualquer mesa de jogo.  É que acreditar num país é imaginar um futuro onde temos de tomar posição. Há quem pense que esta ideia de não aceitar como inevitável a especulação dos mercados corresponde a um pensarmos que esta crise será superada apenas por chamarmos especuladores aos que enriquecem com o fenómeno da dívida soberana, ou pedindo ajuda à Europa. É um erro de avaliação. O que se pretende é que cresça a consciência de que é a Europa, enquanto projecto, que tem de ser salva. E para isso sabemos que temos de fazer sacríficios. Temos que mudar de vida. Reduz as necessidades se queres passar bem, canta Palma (e é bom começarmos a ouvir os nossos poetas). Cada um de nós tem de o interiorizar. Temos de olhar para trás e perceber o quanto este dispositivo ideológico da (falsa) abastança nos tornou eticamente obesos, pesados. Como construímos a nossa identidade numa exarcerbação do consumo.  Consumimos uma ideia de nós que nos afastou de uma humanidade capaz de reconhecer o outro. Quando comecei a dizer, em tom de provocação, que precisávamos da crise para mudar de vida, alguns dos meus amigos responderam, sim, mas há pessoas que vão passar fome. Eu mantinha o tom provocatório, respondia: "- Tu e eu estamos ralando-nos para as pessoas que passam fome. Sempre tivémos. Nós estamos é preocupados porque a fome está a passar na rua de baixo e temos medo que amanhã comece na nossa rua."

 

E pudemos mudar. O ser humano, enquanto projecto colectivo e a comunidade, enquanto dimensão colectiva, têm essa capacidade quase infinda de recolher o jogo e voltar a dar de novo. Tenho quase cinquenta anos. Têm sido aventurosos estes anos,  principalmente no plano colectivo.  O nosso país mudou muito nestes anos. Quando eu nasci dizia-se que o que acontecia em Paris, Londres, Berlim chegava cá com vinte anos de atraso. Hoje mesmo se preferíssemos que algumas maleitas do nosso tempo se atrasassem a chegar ao nosso cantinho, sabemos o bem que nos sabe estarmos em ligação directa com o mundo. É quando eu penso nisto, na possibilidade de um país mudar, que o dia 23 se assemelha a um dia que se clarifica: a eleição de Manuel Alegre é o ponto de partida para uma aventura que exige de nós muita coragem.

 

 

 

 

Joaquim Paulo Nogueira às 19:16 | link do post | comentar

Olhar a crise de novo, agora olhos nos olhos

Quando insisto tanto na dimensão cultural e artística que é preciso trazer para a nossa vida, e a política faz parte da nossa vida, muitas vezes perguntam-me o que é que eu quero dizer com isso, já que encaramos demasiadas vezes a cultura  e a arte em função do mercado dos objectos (os livros, as músicas, as imagens, animadas ou não, as esculturas, etc) que criamos e muito pouco nesse trabalho de vaivém identitário que resulta de brincarmos a esse jogo de possíveis em que se constitui a experiência artística.

 

Ora é fundamental trazermos esta experiência da possibilidade para a nossa vida. Temos de dizer a nós mesmo que podemos viver de outra maneira. Que podemos tomar as nossas decisões de outro modo. Que podemos envolver a comunidade de uma outra forma. O grande drama que vivemos, e que poderá ter contornos trágicos, é que esta clima psicodramático em torno da crise tem como primeira consequência diminuir-nos as possibilidades de acção.  Já o esmiucei de outra forma noutro sítio. Cria-se um clima de terror e de desmembramento do mundo senão agirmos logo e não agirmos de uma determinada maneira. E quando mais discutirmos, mais terrível será. O pathos não admite hesitações. Perante o perigo sistémico, outro jargão da linguagem da crise, as várias economias suportaram preços incomportáveis. O Governo decidiu a nacionalização do BPN, Cavaco promulgou o decreto em 4 dias, o Banco de Portugal anuiu e hoje estamos a pagar, por muitos anos, um preço muito elevado sobre isso.

Joaquim Paulo Nogueira às 01:26 | link do post | comentar
Domingo, 16.01.11

A oportunidade para Portugal

Qualquer pessoa com memória histórica, informada e desvinculada de interesses partidários e financeiros tomará uma decisão responsavelmente acertada no próximo dia 23, até porque o panorama é cristalino:

 

Fernando Nobre é inexperiente, moralmente presunçoso e não dá garantias de não pactuar com o capitalismo desregulado que corrói o "Estado Social" construído por alicerces constitucionais de Abril. Francisco Lopes é anti-democrata e qualquer tentativa para derrubar o regime político-ideológico e económico será com uma alternativa revolucionária marxista-leninista. Enquanto que o candidato conservador Cavaco Silva é o principal responsável interno pelo iniciar da alienação do papel do Estado numa economia que se deveria ter como mista e promotora de equidade na oportunidade e não promiscua em favorecimento da elite financeira. O tecnocrata da realpolitik é o co-responsável nacional pelo pântano em que mergulhamos deste institucionalismo disfuncional e elitista e por isso não deveria merecer, em circunstâncias normais, a confiança do eleitorado.

 

Manuel Alegre é o único candidato democrata com coragem suficiente para não pactuar com o regime que nos trouxe até esta crise económico-financeira e de valores. Manuel Alegre sabe que não é expectável uma sociedade sem classes pela vias democráticas, jogando no tabuleiro do capitalismo global e elevando a luta socialista à escala europeia.

 

Os cidadãos portugueses estão fartos das falsas esperanças que são dadas por agentes políticos com responsabilidades decisórias em órgãos de soberania como Cavaco Silva. Nunca Manuel Alegre teve a oportunidade de tomar as rédeas do país como Cavaco Silva. Alegre merece a oportunidade, Portugal merece a oportunidade.

Cláudio Carvalho às 11:15 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Quarta-feira, 12.01.11

Citações Pertinentes...

O post foi escrito foi escrito por Porfírio Silva no Machina Speculatrix... e destacado pelo Miguel Abrantes no Câmara Corporativa!... Vale a pena ler!... porque a memória e o espírito crítico continuam despertos! ... e porque não podemos ignorar, fica o tema de Francisco Fanhais, antigo mas, sem sombra dúvida alguma, ainda actual!

Ana Paula Fitas às 07:00 | link do post | comentar
Terça-feira, 11.01.11

Esquerdas desunidas

 

Andam tantas almas ainda inclinadas para a abstenção por a esquerda apresentar vários candidatos na primeira volta das presidenciais, que o texto de Vítor Dias, abaixo transcrito, pode ajudar a desanuviar alguns céus demasiadamente enublados.

 

(O que não invalida o que eu ontem escrevi, num outro post: «Os que votarem em Manuel Alegre poderão fazê-lo por uma de duas razões: por considerarem que ele é o melhor de todos os candidatos em campo - e eu considero -, ou porque Cavaco entrará tanto mais fragilizado na segunda etapa da campanha quanto maior, na primeira, for a votação do seu único potencial adversário. E isso conta.»)

 

"1.«A «divisão» ou concentração de votos por candidatos à esquerda de Cavaco Silva não tem a mais pequena influência no resultado de Cavaco Silva e nenhuma influência sobre este ganhar ou não à primeira volta.

 

2. Este ganhará logo à primeira volta se receber 50% mais um dos votos, ou seja pelas cruzes que forem postas ao lado da sua fotografia no boletim de voto e não pela forma como se distribuem as cruzes por Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre.

 

3. Ou seja, nenhuma dúvida (até custa ter de explicar isto) de que votos em Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre são votos em Manuel Alegre, Francisco Lopes e Fernando Nobre e não votos em Cavaco Silva, ou seja são votos que em nada favorecem a eleição de Cavaco Silva.

 

4. E, pronto, levando a caridade ao extremo, e descendo ao nível de escola primária cumpre ainda explicar que, por hipótese numérica, 47,3% num único candidato à esquerda de Cavaco Silva são, numa eleição presidencial, a mesma coisa que 47,3% resultantes da soma das percentagens obtidos por três candidatos à esquerda de Cavaco Silva.

 

5.Por fim, ainda poderia explicar que em casos, como é o presente, em que não há, nem de perto nem de longe, um real consenso político e social em torno de um só candidato, a existência de diversos candidatos à esquerda até será provavelmente um factor de maior comparência nas urnas dos eleitores de esquerda, o que não é nada dispiciendo (…)."

Joana Lopes às 17:10 | link do post | comentar
Sábado, 08.01.11

"Uma semente nalgum canto de jardim"

 

 

 

Voltar a acreditar na Voz da Liberdade! A nossa voz.

Vera Santana às 14:37 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 04.01.11

As presidenciais e o discurso da direita neofascista (Público, 31.12.10)

Ou a esquerda perdeu definitivamente as suas defesas ou é o clima instalado, de desgaste e saturação dos valores democráticos, que começa a instigar os novos arautos da direita proto-fascista do século XXI. Seja como for, estamos num ponto de indefinição e de viragem particularmente preocupante. Mas as épocas de crise têm pelo menos o condão de demarcar posições e separar as águas. A actual contradição não é apenas entre a esquerda e a direita, mas também entre a memória e o esquecimento e entre o futuro da democracia e o regresso ao elitismo fascizante. O momento crítico que se vive na Europa não se compadece com a atitude persecutória dos que, além de não possuírem nenhum passado político já se arrogam o direito de agredir e julgar na praça pública os que lutaram e arriscaram a vida para nos devolver a liberdade.

 

Vem isto a propósito de dois artigos de opinião de Rui Ramos (RR) e Henrique Raposo (HR), publicados no jornal «Expresso» (18/12/2010), qual deles o mais agressivo e demagógico no branqueamento do salazarismo e no desrespeito perante quem corajosamente lhe resistiu. Não por acaso, o ataque é contra Manuel Alegre. Falar do passado, ou melhor, ter um passado e assumi-lo torna-se, na linguagem destes fazedores de opinião, a “exploração comercial da mitologia antifascista” (RR), enquanto se considera que “às portas de 2011” (sic) lembrar o salazarismo, a PIDE ou o antigo regime é qualquer coisa de absurdo, e de todo incompatível com “as ideias europeias de 2010” (HR). Na mesma linha doutrinária, uma outra pérola de RR é-nos oferecida no mesmo jornal (Expresso, 23/12/10) com a demonstração de que as leis laborais foram concebidas para “expropriar os proprietários” quando, segundo este “expert” em direito do trabalho, o que é preciso é deixar de ver “a propriedade como um crime” e “tratar as partes contratantes como iguais”. Perante isto, até Belmiro ou Amorim, que reconhecem direitos aos trabalhadores, parecem autênticos gonçalvistas (!) e a Alemanha, a França ou os países nórdicos são concerteza países comunistas. Eis uma “questão ideológica” que faria inveja a António Ferro.

 

Por outro lado, não sei o que sejam as “ideias europeias de 2010”, de que fala HR. Primeiro, porque foram as ideias e as políticas dominantes na Europa e o modelo neoliberal que nela vingou nas últimas décadas que conduziram ao estado em que estamos; ou seja, como toda a gente sabe, o que infelizmente se assiste na Europa actual é ao bloqueio de soluções democráticas para a UE e ao reforço do autoritarismo do mais forte (a Alemanha). Segundo, porque, as propostas alternativas ao paradigma dominante competem com as forças ultraliberais e alguns genes autoritários adormecidos que parecem querer despertar no actual cenário de crise. As novas ideias europeias que precisamos devem ajudar-nos a que o passo seguinte seja em prole do progresso, da igualdade, da coesão e da justiça social e não do retrocesso a uma matriz conservadora e liberal. Seria cómico se não fosse trágico. O “provinciano complexo” de inferioridade da direita (pelo menos de uma certa direita) está a promover o clima populista e o “vazio ideológico” que pode fazer ressurgir a mais perigosa das ideologias: abrir o campo a um novo “salvador” pretensamente imune às ideologias. O povo tem memória. E a memória colectiva tem de permanecer no debate público.

 

Mas, o que é especialmente inquietante é que a campanha em curso de ataques soezes contra Manuel Alegre, como é o caso destes, tem como objectivo não apenas branquear a importância do nosso passado histórico recente, mas igualmente estender a passadeira ao candidato Cavaco Silva, o economista e ex-Primeiro Ministro cujas responsabilidades políticas no processo português de adesão à UE devem ser lembradas (no momento em que assistimos ao seu falhanço). É como se possuir uma trajectória pessoal de combatente pela democracia e pela liberdade tivesse, de repente, passado a constituir um estigma inaceitável. É como se não possuir qualquer passado de luta tivesse, de repente, passado a constituir o acréscimo de autoridade para que a eleição presidencial se torne um passeio, um mero acto burocrático ou plebiscitário.

 

A um mês das presidenciais não há prognósticos credíveis, tal como não os há quanto às prováveis rupturas e viragens que se adivinham na Europa e no mundo. Mas, o discurso demagógico destes pregadores – que não tiram da cabeça os pesadelos do PREC – prova que os clichés e radicalismos do passado estão a renascer das cinzas e revela bem as obsessões fantasmagóricas da direita neofascista.

Elísio Estanque às 23:26 | link do post | comentar

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