Quarta-feira, 19.01.11

Estabilidade, aquela morta morte dos cemitérios!

As mais recentes declarações de Correia de Campos ( independentemente do ressentimento que possam traduzir) ajudam a perceber exactamente o que está em causa nestas eleições: a estabilidade em que temos vivido até agora com os conceitos de cooperação estratégica (com o GPS um pouco danificado, como sugere o boneco de Luís Afonso) ou a instabilidade que resulta de tomarmos nas mãos a expressão do nosso destino. Eu creio que elaboramos muito acriticamente a ideia de estabilidade. Quando uma situação é negativa, estabilizá-la é prolongar os efeitos negativos da mesma.

 

Nunca me esqueço de uma vez, em Madrid, ter ido, com um dramaturgo amigo,  visitar José Monleón, grande amigo de Portugal, do teatro Português e essenciamente uma grande referência do mundo do teatro iberoamericano. Já estávamos de saída, o meu amigo pergunta-lhe:

- E então,a saúde? Tem estado estável?

Ao que ele, com aquele largo sorriso que o caracteriza, responde:

- A estabilidade é a morte. É a instabilidade que me permite manter vivo.

 

Desde essa lição de vida que valorizo muito mais aquelas experiências e aprendizagens que nos ensinam a lidar com a instabilidade, do que aquelas que, por um conceito errático de estabilidade pretendem perpetuar situações como as que nos trouxeram até ao lugar onde nos encontramos. Os cemitérios não estão só cheios de homens indispensáveis, como escreveu Brecht. Também de tédio e estabilidade. A estabilidade de Cavaco e Silva - e parece também a de Correia de Campos -  é a manutenção da situação, é no plano visível e explícito a política activa dos silêncios, dos não posso dizer, dos não tenho nada a comentar sobre, do não é a ocasião propícia para, do neste momento não é apropriado. Conjugado, no plano invísivel e subterrâneo, com a articulação nunca esclarecida com interesses lesivos à comunidade. É a estabilidade dos cemitérios (e dos covis).

 

Num mar agitado e de grandes vagas como é a tempestade onde estamos metidos, a estabilidade é uma mentira de quem não consegue arregimentar no sonho, na utopia, a coragem necessária. Nada mais desestabilizador do que a falácia política, o não falar o que se sente (ou deixar colonizar a voz pelo que se ressente).

 

Só a verdade nua e crua une verdadeiramente. E neste equilibrio institucional do nosso sistema constitucional, o Presidente da República, porque é aquele que é eleito por uma comunidade que sabe exactamente em que está a delegar a sua representação, deve ser capaz também de ser a voz da inquietação, do apelo, da convocatória, da esperança.

Joaquim Paulo Nogueira às 00:41 | link do post | comentar
Terça-feira, 18.01.11

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Já deixei aqui expresso o que penso sobre a crise financeira: quanto mais grave é, menos sentido faz assustarmo-nos com ela, já que o nosso susto inflaciona as taxas de juro e os especuladores mais especulam. Se não especulassem - como diria Pessoa -  não seriam especuladores. O susto também reduz as possibilidades de escolha. O afã especulativo não tem crises de identidade, feriados, folgas, dias santos. E também: quanto menos formos capazes de resgatar a nossa vida à dimensão financeira, menos vida temos pela qual lutar.   

 

Não é que acreditar num país, o nosso país,  seja como fazer bluff numa qualquer mesa de jogo.  É que acreditar num país é imaginar um futuro onde temos de tomar posição. Há quem pense que esta ideia de não aceitar como inevitável a especulação dos mercados corresponde a um pensarmos que esta crise será superada apenas por chamarmos especuladores aos que enriquecem com o fenómeno da dívida soberana, ou pedindo ajuda à Europa. É um erro de avaliação. O que se pretende é que cresça a consciência de que é a Europa, enquanto projecto, que tem de ser salva. E para isso sabemos que temos de fazer sacríficios. Temos que mudar de vida. Reduz as necessidades se queres passar bem, canta Palma (e é bom começarmos a ouvir os nossos poetas). Cada um de nós tem de o interiorizar. Temos de olhar para trás e perceber o quanto este dispositivo ideológico da (falsa) abastança nos tornou eticamente obesos, pesados. Como construímos a nossa identidade numa exarcerbação do consumo.  Consumimos uma ideia de nós que nos afastou de uma humanidade capaz de reconhecer o outro. Quando comecei a dizer, em tom de provocação, que precisávamos da crise para mudar de vida, alguns dos meus amigos responderam, sim, mas há pessoas que vão passar fome. Eu mantinha o tom provocatório, respondia: "- Tu e eu estamos ralando-nos para as pessoas que passam fome. Sempre tivémos. Nós estamos é preocupados porque a fome está a passar na rua de baixo e temos medo que amanhã comece na nossa rua."

 

E pudemos mudar. O ser humano, enquanto projecto colectivo e a comunidade, enquanto dimensão colectiva, têm essa capacidade quase infinda de recolher o jogo e voltar a dar de novo. Tenho quase cinquenta anos. Têm sido aventurosos estes anos,  principalmente no plano colectivo.  O nosso país mudou muito nestes anos. Quando eu nasci dizia-se que o que acontecia em Paris, Londres, Berlim chegava cá com vinte anos de atraso. Hoje mesmo se preferíssemos que algumas maleitas do nosso tempo se atrasassem a chegar ao nosso cantinho, sabemos o bem que nos sabe estarmos em ligação directa com o mundo. É quando eu penso nisto, na possibilidade de um país mudar, que o dia 23 se assemelha a um dia que se clarifica: a eleição de Manuel Alegre é o ponto de partida para uma aventura que exige de nós muita coragem.

 

 

 

 

Joaquim Paulo Nogueira às 19:16 | link do post | comentar

Olhar a crise de novo, agora olhos nos olhos

Quando insisto tanto na dimensão cultural e artística que é preciso trazer para a nossa vida, e a política faz parte da nossa vida, muitas vezes perguntam-me o que é que eu quero dizer com isso, já que encaramos demasiadas vezes a cultura  e a arte em função do mercado dos objectos (os livros, as músicas, as imagens, animadas ou não, as esculturas, etc) que criamos e muito pouco nesse trabalho de vaivém identitário que resulta de brincarmos a esse jogo de possíveis em que se constitui a experiência artística.

 

Ora é fundamental trazermos esta experiência da possibilidade para a nossa vida. Temos de dizer a nós mesmo que podemos viver de outra maneira. Que podemos tomar as nossas decisões de outro modo. Que podemos envolver a comunidade de uma outra forma. O grande drama que vivemos, e que poderá ter contornos trágicos, é que esta clima psicodramático em torno da crise tem como primeira consequência diminuir-nos as possibilidades de acção.  Já o esmiucei de outra forma noutro sítio. Cria-se um clima de terror e de desmembramento do mundo senão agirmos logo e não agirmos de uma determinada maneira. E quando mais discutirmos, mais terrível será. O pathos não admite hesitações. Perante o perigo sistémico, outro jargão da linguagem da crise, as várias economias suportaram preços incomportáveis. O Governo decidiu a nacionalização do BPN, Cavaco promulgou o decreto em 4 dias, o Banco de Portugal anuiu e hoje estamos a pagar, por muitos anos, um preço muito elevado sobre isso.

Joaquim Paulo Nogueira às 01:26 | link do post | comentar
Segunda-feira, 17.01.11

Cavaco e Alegre: entre a continuidade e a oportunidade de mudança

Atravessamos tempos de mudança. Aconteça o que acontecer no futuro mais próximo, a reconfiguração da Europa que hoje conhecemos é inevitável. Os resultados da cartilha económica aplicada à Grécia e à Irlanda (e que obstinadamente ameaça impor-se a outros países periféricos, como Portugal) conduzirão a um de dois cenários: o enfraquecimento (na melhor das hipóteses) do projecto europeu (com o estreitamento da zona euro); ou uma reinvenção da governação económica da Europa, capaz de reforçar o princípio do interesse comum e da coesão, e de pôr um fim à inconcebível subjugação dos Estados aos interesses especulativos dos mercados financeiros. Como certo temos, apenas, que não é possível prolongar indefinidamente o abismo austeritário, a cura de recessão com mais recessão.

 

O que está em jogo no dia 23 é, por isso, a escolha de um presidente consciente do "espírito do tempo" e dos dilemas que o mesmo comporta: a escolha entre a continuação da agonia (até ao colapso) e a consciência da oportunidade de mudança que a crise contém.

Por um conjunto muito simples de razões, o economista Cavaco Silva não é, decididamente, esse presidente. Acredita, apesar de toda a evidência acumulada, que a saída da crise está na prossecução do suicídio austeritário. Venera, com viscosa obediência, os ditames dos mercados financeiros (não sendo sequer capaz de neles distinguir o rosto da especulação, contrário aos próprios interesses do capital produtivo). Acolhe, convicta e complacentemente, o Cavalo de Tróia da destruição do Estado Social e dos serviços públicos, apresentando-se como uma espécie de provedor - em Belém - das Instituições Privadas de Solidariedade Social. Rodeado por acólitos das terapêuticas recessivas, o situacionismo, a passividade e a continuidade são o legado que podemos esperar de Cavaco. Um presidente integrado no regime económico vigente (o mesmo cidadão que se sentia “integrado no regime” político de Salazar), inapto, portanto, para lidar com a mudança.

 

Como refere André Freire em artigo hoje publicado, lembrando o caso do Presidente Lula (ex-operário e ex-sindicalista), para enfrentar os problemas com que nos deparamos não é preciso eleger um economista. Precisamos é de alguém capaz de pensar e agir perante os desafios, as injustiças e as contrariedades. De alguém que tenha consciência da natureza da crise e das formas de a superar. De alguém que saiba rodear-se de pessoas capazes de reflectir para lá das fronteiras do pensamento único, para lá dos limites da fracassada (e ruinosa) ortodoxia económica. De um presidente que saiba que as soluções se constroem em diálogo, capacidade crítica e abertura de pensamento. Esse presidente é Manuel Alegre e a sua eleição constituirá um importante sinal para os tempos próximos.

Nuno Serra às 19:11 | link do post | comentar

Appel au vote !

Mes chers compatriotes de France et d'Europe,

 

De-ci, de-là, je vous ai régulièrement interpellé sur l'échéance proche désormais des 22 et 23 janvier. Encore une élection qui ne va pas changer grand chose, diront certains... Encore un Président de la République symbolique mais, pourquoi faire ? S'il se réclame du peuple tout entier, pourquoi élever la voix à gauche ?

 

Si le Président de la République portugaise ne gouverne pas, c'est certainement une chance. En France, certains leaders socialistes rêvent et travaillent à l'avènement du VIème République qui s'inspire du régime politique de la démocratie portugaise. Un Parlement fort. Un gouvernement issu de la légitimité du peuple, avec un Premier ministre pour capitaine. Gageons que la démocratie ne repose pas uniquement sur les épaules d'un seul volontaire, aussi volontaire soit-il. Et je refuse, comme beaucoup d'autres, que notre démocratie tienne en équilibre sur un fil aussi fragile...

 

La campagne pour Manuel Alegre en France n'a pas eu lieu de forme classique, autant pour les militants qui s'animent dans d'autres pays européens. Peu de moyens, peu de logistique. Nous sommes loin du Portugal, toujours trop loin. Nous sommes surtout quelques centaines de militants investis pour un pays dans lesquels nous n'avons même pas vécu plus d'un mois complet dans notre vie. Et la vie a déjà été longue pour certains. Pourtant, cette campagne s'est faite parce qu'il s'agit du candidat Manuel Alegre. Pour Manuel Alegre ! Les raisons de ce soutien son nombreuses : son passé militant exceptionnel, ses combats de résistant, sa détermination à remettre la liberté dans les mains des siens pour un pays juste et solidaire franchissant chaque étape, sans sourciller, depuis plus de 50 ans, avec l'avenir toujours meilleur pour cible, les mots qui ont fait le Préambule de la Constitution, la poésie et la littérature engagées qui sont une évidence comme cette candidature aujourd'hui. Il est ce Victor Hugo du XXème siècle qui grignote allègrement notre XXIème siècle afin de dire, inlassablement, à tous que la démocratie est le bien commun le plus précieux. Protégeons-la et sachons décider quand nous sommes appelés à le faire. Ma génération faite de fragmentés et de fragmentaires n'est pas moins courageuse que les précédentes et les combats politiques ne sont pas moins nombreux ou moins importants. La justice sociale est encore à faire. Ma génération manque surtout de Manuel Alegre au pluriel, de voix comme la sienne.

 

Cet engagement fort pour Manuel Alegre et pour ce pays qui manque toujours là où nous sommes dispersés est une façon de faire l'Europe. Une façon d'inscrire l'idée et le sentiment de saudade dans l'avenir. Celui-là même qu'on explique toujours si mal et qui fait que les Portugais ont toujours su quitter le port sans jamais l'abandonner. Nous sommes tous en train d'écrire quelques phrases de cette histoire portugaise, discrètement mais sûrement. Pour celle de la France aussi, sans équivoque. J'ai grandi avec des Portugais qui n'ont jamais isolé les drapeaux l'un de l'autre. Dans une salle de réunion, dans une salle de fête, sur les places publiques où on se lançait dans les pas joyeux d'un Vira du Minho, dans les voitures, dans les maisons, les drapeaux se sont toujours entrecroisés fièrement. "Nous sommes européens" et il n'est pas question d'abandonner un pays pour l'autre. On ira de port en port, comme les Portugais ont toujours su faire d'ailleurs.  A Metz, de quelques rares inscrits en 2001, nous dépassons la centaine. Tout est possible à condition d'être là !

  

Ce vote, c'est notre strophe à nous. Une strophe du poème portugais national. Manuel Alegre nous a déjà dit et fait de la place, dans ses pages planches mais, aussi dans ce Portugal qu'il souhaite plus juste pour tous.

Ses premiers mots, s'il devient Président de la République, seront aussi pour nous.

 

Alors, aux urnes citoyens ! Au diable les kilomètres qui nous séparent des Consulats ! Ils ne sont rien pour voir Manuel Alegre à Belém.

Mon vote et la liberté que j'y délègue est sienne. Sa voix seule saura donner à ce pays une autre première note d'un destin meilleur.

 

Nathalie de Oliveira 

 

 

Natali Oliveira às 09:10 | link do post | comentar
Terça-feira, 11.01.11

O problema do 11-1-11 será o 12-12-12 ?!

Boa parte dos países que dominarão o século XXI têm graves limitações ou sérios constrangimentos, agora ou até há pouco tempo, de liberdade de opinião, associação e manifestação.Vários dos países com maior potencial de dominar as próximas décadas têm sérias limitações ou graves problemas com a liberdade religiosa ou a convivência entre religiões.A esmagadora maioria destes países teve ou tem problemas graves no que toca à corrupção ou criminalidade em geral. Boa parte deles passou recentemente por enormes crise ou dramáticas transformações.

 

Antes Brasil, Rússia, Índia, China, agora também o México, a Argentina e África do Sul. (Coreia do Sul, Chile, Tailândia, Malásia e Filipinas falharam o alvo ou estão no cruzamento entre o sucesso e o falhanço, Espanha e Austrália estão em stand by)

 

Sem ser pessimista será um problema de tolerância, direitos e liberdades e dos custos associados ao "Estado de Liberdade" ou ao "Estado Social"? Sem ser alarmista, será um problema de modelo cultural ocidental em falência? Será a normal fase de decadência dum "sistema" ou "modo de vida" em ciclo descendente ou apenas sintomas duma fase de transformação rumo a algo diferente?

Pode ser só a proximidade do dia 12 de Dezembro de 2012 a afectar os mercados e os políticos mas, honestamente, duvido.

 

Acredito que encontrar a raiz do "medo Ocidental", a razão da putrefacção de alguns dos alicerces da nossa sociedade, os verdadeiros risco que corre o nosso modo de vida, os  reais desafios que o nosso modelo de regime e "governança" enfrentam, é a única forma a vencermos o século XXI. Não contra ninguém, mas por nós.Não contra "os outros" mas também com "eles" ou por causa "deles".O caminho terá de passar não por impor a nossa matriz numa "cruzada" espúria contra o "Oriente" ou os "novos-ex-velhos-futuros emergentes" mas mudando algo em nossa própria casa, não? E de preferência mudando algo já.Portugal, Ibéria ou não-Ibéria, Europa do Norte e do Sul, Europa Central e Periférica ou ultra-periférica, Europa da 1ª Divisão ou da 2ªDivisão.União Europeia Federal ou nem por isso.Algo tem de ser pensado, debatido, testado, implementado, algo tem de mudar, ou estou equivocado? De verdadeiramente alarmante, especialmente para a Velha Europa, é que algo que é menos grave para a Nova Europa ou os EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia entre outros, é do Atlântico aos Urais não encontro um pensamento, uma ideia, um conceito de futuro e de renovação para nós, Europa, berço do "Ocidente".

 

Não é o Putinismo, um pseudo-Merkelismo nem um soft-Berlusconismo, não me parece que exista Cameronismo e muito menos Sarkozismo, Obamaismos nem servem para os US of A, muito menos para a Europa!De onde virá a solução?A luz e o caminho...ou a inspiração e motivação?

 

Desculpem esta interrupção na campanha eleitoral Presidencial, segue dentro de momentos...

 

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Paulo Ferreira às 12:48 | link do post | comentar

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