Sexta-feira, 14.01.11

Vamos à 2ª volta!

As sondagens são, como se sabe, enganosas. Aliás, elas são importantes sobretudo porque – mesmo que sejam tendenciosas e manipuladas como muitas vezes acontece – conseguem induzir a convicção de uma vitória ou de uma inevitável derrota entre as hostes de cada candidatura e do eleitorado. Não está escrito nas estrelas, nem mesmo se pode deduzir da análise desta campanha, que Cavaco Silva ganhe já no dia 23. As flutuações de votos entre diferentes bases eleitorais serão, sem dúvida, significativas. Mas era bom que os candidatos da esquerda (mais Nobre) conseguissem fixar os seus potenciais eleitores. O resultado é sempre fruto da conjugação entre sensibilidades contrárias, sendo certo que algumas delas podem anular-se mutuamente no acto eleitoral e fazer aumentar a abstenção para níveis inesperados. Mas, por outro lado, a capacidade de mover confluências e de criar laços entre forças politicas contrárias pode fazer potenciar a votação no candidato aglutinador da esquerda.

 

Em todo o caso, é previsível nesta eleição que, primeiro: haja forte abstenção à direita e à esquerda; segundo: Cavaco tire obviamente a vantagem do poder e de uma imagem sorumbática que (infelizmente) muitos portugueses confundem com "autoridade" ou "seriedade"; terceiro: que Alegre beneficie dos apoios de dois partidos que se digladiam no Parlamento e na política, mas cujas bases eleitorais se revêem nos valores e políticas da esquerda (em especial a defesa do Estado social). O facto de Manuel Alegre estar agora no centro de um leque tão divergente de protagonistas – aliás, agravado com a exposição mediática dos líderes do BE e do PS nos últimos dias da campanha – pode ser interpretado pelo eleitorado como a prova de que Alegre é de facto potenciador de consensos. E isso estimular os votantes anti-Cavaco.

 

Estou convencido de que a possibilidade de uma segunda volta está em aberto. Tudo depende de como se comportarem os candidatos nesta recta final. É visível que Cavaco está nervoso e que começa a fazer disparates mais frequentemente. Num dia aparece em sintonia com o Governo, no dia seguinte dramatiza com a gravidade da crise. Num momento veste a pele de Presidente, logo a seguir a de líder da direita; num dia defende os pobres no outro aplaude os sacrossantos mercados. A forma como a austeridade for conotada mais com Cavaco ou mais com o Governo pode atingir negativamente um ou outro. Porém, se todos aqueles que não querem mais Cavaco na presidência e também não se identifiquem com Alegre forem votar no dia 23, em qualquer um dos candidatos alternativos, teremos certamente uma segunda volta. São esses que farão a diferença, pois o grande combate é agora contra a abstenção à esquerda.

 

E todos os argumentos são importantes para mobilizar os nossos amigos para votar nestas presidenciais.

Elísio Estanque às 14:49 | link do post | comentar
Quarta-feira, 05.01.11

Patriarcado ou conservadorismo primário?

A passagem abaixo não poderia evidentemente passar despercebida a ninguém. Porque, mais do que o discurso preparado e retocado dos candidatos, é sobretudo aquilo que se deixa escapar com a naturalidade descuidada da ignorância, no fluir de uma conversa, que se torna significativo e revelador. Foi o que aconteceu nesta intervenção. Cavaco sabe (tal como os outros) que precisa de se dirigir a segmentos especificos da sociedade e um deles são as mulheres. Mas a forma como o presidente em exercício faz referência à condição feminina denuncia, de forma clara, a sua perspectiva acerca do papel da mulher na sociedade. Para CS esse papel resume-se a "um pilar da família", à sua acção de "protecção das crianças" e a "fazerem milagres com o orçamento limitado da casa". Com esta visão se torna clara, desde logo, a mentalidade arcaica do Presidente acerca da sociedade. Mas revela também a sua insensibilidade e a sua falta de cultura.

 

Num país em que as mulheres possuem uma elevada empregabilidade, mas também onde elas são vitimas de discriminação, estando em maior número no desemprego e nos sectores mais precários, são segregadas no acesso a posições de chefia e recebem salários inferiores aos homens (para tarefas iguais) em cerca de 30%; considerando os licenciados que trabalham, as mulheres recebem em média metade dos salários dos homens. Sim, é  verdade: são elas que ainda tomam conta dos filhos, se encarregam das questões esclares e da sua saúde (assim como executam a maioria dos trabalhos domésticos; e a esta realidade pode somar-se o drama da violência doméstica contra as mulheres, que ocorre diariamente em muitis lares portugueses). Porém, é isso que devemos combater (e não justificar ou defender) em nome da emancipação da mulher!

 

De facto, é essa dura realidade que se esconde por detrás da imagem alinhada, sofrida, sacrificada e coitadinha atribuida à mulher portuguesa ao longo do Estado Novo. O velho estereotipo do «doce lar» que durante muitos anos alimentou essa fantasia da mulher enquanto "fada do lar", a incansável e submissa companheira que deveria velar pela limpeza da "casa portuguesa concerteza", limpinha, arrumadinha e ordeira, sob a autoridade do "ganha-pão".

 

Fica, portanto, muito claro qual é o conceito de "mulher" e de "família" do actual Presidente.

 

Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, as mulheres portuguesas de hoje -- jovens, ou menos jovens -- nada têm a ver com aquela obsoleta "figura" feminina construída pelo ideologia autoritária e conservadora do salazarismo. Acredito, portanto, que o eleitorado feminino irá certamente punir um candidato que ainda transporta na cabeça uma ideia tão ultrapassada do papel da mulher. É essa mentalidade retrógrada que impede a mulher portuguesa de alcançar o reconhecimento e o protagonismo que merece.

Elísio Estanque às 21:58 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Cavaco BPNizado

Desde o último debate (entre Manuel Alegre e Cavaco Silva) que a questão SLN/BPN persegue Cavaco Silva (CS). Como ainda hoje dizia um insuspeito comentador da SIC-Noticias, "há coisas que precisam ser explicadas". A gente nem quer, longe de nós, pôr em causa a honorabilidade da pessoa. Questões de justiça são do foro da justiça. Porém, à política o que é da política. Os cidadãos portugueses têm o direito de saber os contornos destes movimentos e das relações pessoais entre o presidente em exercício e Oliveira e Costa, a SLN e o BPN. No momento da campanha em que nos encontramos, este aspecto pode ser decisivo para o resultado do próximo dia 23. Porque, naturalmente, os eleitores têm o direito de saber que informação privilegiada teve o accionista Cavaco Silva para comprar, em seu nome e de sua filha, um volume de acções tão significativo no momento em que elas valiam tão pouco? Que outros movimentos semelhantes ocorreram no mesmo período de tempo com outros clientes (se os houve)? E quais os preços "de mercado" praticados nos outros negócios? Foram idênticos? Os outros accionistas também ganharam somas/ proporções tão generosas de dinheiro? Foi simples contingência que em tão pouco tempo a família Silva tenha obtido um lucro de cerca de 140%?

 

Bem, se se confirmar que foi uma de mera questão de sorte, podemos finalmente perceber porquo CS crê tão cegamente nos mercados e nas transacções bolsistas! Todavia, se houve ali alguma marosca, todo o verniz que recobre de seriedade o referido candidato pode de repente estalar e o destino ainda lhe pode pregar uma inesperada partida neste lindo mês de Janeiro de 2011. Seja como for, o certo é que já lá vai uma semana que o homem de Boliqueime está “BPNizado”, pois o assunto colou-se-lhe que nem lapa e assim parece continuar para animar uma campanha que já estava dada como resolvida. Não está...

Elísio Estanque às 00:00 | link do post | comentar
Terça-feira, 04.01.11

As presidenciais e o discurso da direita neofascista (Público, 31.12.10)

Ou a esquerda perdeu definitivamente as suas defesas ou é o clima instalado, de desgaste e saturação dos valores democráticos, que começa a instigar os novos arautos da direita proto-fascista do século XXI. Seja como for, estamos num ponto de indefinição e de viragem particularmente preocupante. Mas as épocas de crise têm pelo menos o condão de demarcar posições e separar as águas. A actual contradição não é apenas entre a esquerda e a direita, mas também entre a memória e o esquecimento e entre o futuro da democracia e o regresso ao elitismo fascizante. O momento crítico que se vive na Europa não se compadece com a atitude persecutória dos que, além de não possuírem nenhum passado político já se arrogam o direito de agredir e julgar na praça pública os que lutaram e arriscaram a vida para nos devolver a liberdade.

 

Vem isto a propósito de dois artigos de opinião de Rui Ramos (RR) e Henrique Raposo (HR), publicados no jornal «Expresso» (18/12/2010), qual deles o mais agressivo e demagógico no branqueamento do salazarismo e no desrespeito perante quem corajosamente lhe resistiu. Não por acaso, o ataque é contra Manuel Alegre. Falar do passado, ou melhor, ter um passado e assumi-lo torna-se, na linguagem destes fazedores de opinião, a “exploração comercial da mitologia antifascista” (RR), enquanto se considera que “às portas de 2011” (sic) lembrar o salazarismo, a PIDE ou o antigo regime é qualquer coisa de absurdo, e de todo incompatível com “as ideias europeias de 2010” (HR). Na mesma linha doutrinária, uma outra pérola de RR é-nos oferecida no mesmo jornal (Expresso, 23/12/10) com a demonstração de que as leis laborais foram concebidas para “expropriar os proprietários” quando, segundo este “expert” em direito do trabalho, o que é preciso é deixar de ver “a propriedade como um crime” e “tratar as partes contratantes como iguais”. Perante isto, até Belmiro ou Amorim, que reconhecem direitos aos trabalhadores, parecem autênticos gonçalvistas (!) e a Alemanha, a França ou os países nórdicos são concerteza países comunistas. Eis uma “questão ideológica” que faria inveja a António Ferro.

 

Por outro lado, não sei o que sejam as “ideias europeias de 2010”, de que fala HR. Primeiro, porque foram as ideias e as políticas dominantes na Europa e o modelo neoliberal que nela vingou nas últimas décadas que conduziram ao estado em que estamos; ou seja, como toda a gente sabe, o que infelizmente se assiste na Europa actual é ao bloqueio de soluções democráticas para a UE e ao reforço do autoritarismo do mais forte (a Alemanha). Segundo, porque, as propostas alternativas ao paradigma dominante competem com as forças ultraliberais e alguns genes autoritários adormecidos que parecem querer despertar no actual cenário de crise. As novas ideias europeias que precisamos devem ajudar-nos a que o passo seguinte seja em prole do progresso, da igualdade, da coesão e da justiça social e não do retrocesso a uma matriz conservadora e liberal. Seria cómico se não fosse trágico. O “provinciano complexo” de inferioridade da direita (pelo menos de uma certa direita) está a promover o clima populista e o “vazio ideológico” que pode fazer ressurgir a mais perigosa das ideologias: abrir o campo a um novo “salvador” pretensamente imune às ideologias. O povo tem memória. E a memória colectiva tem de permanecer no debate público.

 

Mas, o que é especialmente inquietante é que a campanha em curso de ataques soezes contra Manuel Alegre, como é o caso destes, tem como objectivo não apenas branquear a importância do nosso passado histórico recente, mas igualmente estender a passadeira ao candidato Cavaco Silva, o economista e ex-Primeiro Ministro cujas responsabilidades políticas no processo português de adesão à UE devem ser lembradas (no momento em que assistimos ao seu falhanço). É como se possuir uma trajectória pessoal de combatente pela democracia e pela liberdade tivesse, de repente, passado a constituir um estigma inaceitável. É como se não possuir qualquer passado de luta tivesse, de repente, passado a constituir o acréscimo de autoridade para que a eleição presidencial se torne um passeio, um mero acto burocrático ou plebiscitário.

 

A um mês das presidenciais não há prognósticos credíveis, tal como não os há quanto às prováveis rupturas e viragens que se adivinham na Europa e no mundo. Mas, o discurso demagógico destes pregadores – que não tiram da cabeça os pesadelos do PREC – prova que os clichés e radicalismos do passado estão a renascer das cinzas e revela bem as obsessões fantasmagóricas da direita neofascista.

Elísio Estanque às 23:26 | link do post | comentar

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