Segunda-feira, 24.01.11

As verdades e ilusões de Cavaco, novamente presidente

"Ouvi há pouco Cavaco afirmar que tinha vencido a verdade. A verdade de Cavaco é o silêncio. No discurso de vitória, não só atacou todos os que ousaram escrutiná-lo, como se escusou a responder a qualquer questão que lhe fosse dirigida pelos jornalistas. Nesta campanha, Cavaco foi desmascarado na sua suposta imaculada existência. Hoje é claro que fez dinheiro à custa de amigos pelintras. Mas achou que estava acima da obrigação de esclarecer o que tinha - e tem - de ser esclarecido. Cavaco nunca perdeu os tiques de pequeno ditador.

Cavaco afirmou hoje, magnânimo, que nunca vendeu ilusões. Só quem prefere esquecer os 10 anos de governo cavaquista pode deixar de recordar o discurso do 'pelotão da frente'. Dia sim dia não, o então primeiro-ministro dizia-nos que no espaço de uma década estaríamos entre os países mais desenvolvidos da UE. Isto num país pobre e sub-qualificado (e sê-lo-ia hoje ainda mais, se mantivéssemos as opções de educação do seu reinado), dominado por grupos económicos parasitários que cresceram à custa de privatizações a preço de saldo e das auto-estradas cavaquistas. O demagogo de todas as horas não perdeu o jeito.

Depois de um mandato marcado por aquelas relevantíssimas e esclarecedoras intervenções relacionadas com o Estatuto dos Açores, as escutas a Belém e o casamento homossexual, o homem continua a tentar convencer-nos que é um grande estadista. E já poucos duvidam que ele acredita no que diz. Estranho é que não seja o único.
O país não ficará mais arruinado com esta eleição, é certo. Mas este homem só deixa sossegado quem precisa muito de acreditar em qualquer figura plástica que lhes apareça no ecrán."
    
(Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas)
Nuno Serra às 00:46 | link do post | comentar
Sexta-feira, 21.01.11

Da soberba

"Nenhum dos adversários do chefe de Estado faz a mais pálida ideia sobre o que verdadeiramente é a função presidencial". É com esta frase peculiar que Carlos Blanco de Morais, membro da Comissão Política de Cavaco Silva, encabeça o artigo do Público da semana passada. Por momentos parece que estamos perante uma tentativa de golpe de Estado, na qual cinco irreverentes candidatos ameaçam ilegitimamente um ser soberano. Fica bem Carlos Blanco na Comissão de Honra de Aníbal. Apenas se estranha que este docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa aparente não ter a noção de que num acto eleitoral apenas existem candidatos.

Nuno Serra às 21:17 | link do post | comentar

Foi você que falou em baixeza política?

"Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o país e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro."

 

Senhor candidato Aníbal Cavaco Silva: havendo segunda volta e não se abatendo sobre o país a calamidade com que tenta desesperadamente intimidar os eleitores (que toma por parvos), retracta-se deste vil disparate ou entulha uma vez mais o seu silêncio com uma fatia de bolo-rei?

Nuno Serra às 11:27 | link do post | comentar
Quinta-feira, 20.01.11

A austeridade, quando nasce, não é para todos

"As despesas da Presidência da República aumentaram de forma constante ao longo dos cinco anos de mandato de Cavaco Silva. Em 2006, primeiro ano de mandato, a despesa inscrita no OE foi de 14,1 milhões de euros, subindo progressivamente até atingir o valor máximo de 17,4 milhões de euros, em 2010. Em 2005, último ano de mandato do anterior presidente, as despesas da Presidência da República situavam-se em 13,3 milhões de euros. Nos cinco anos de mandato de Cavaco Silva os gastos da Presidência tiveram um crescimento total de 31%, valor que ultrapassa a média de aumento da despesa pública, contribuindo para o agravamento do défice orçamental. (aqui, com registo)."

 

(Daniel Oliveira, Arrastão)

Nuno Serra às 01:50 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Quarta-feira, 19.01.11

Perguntas para responder na segunda volta (I)

"Acha que Cavaco Silva respeitou os seus deveres constitucionais no seguimento da conspiração lançada pelo Público em Agosto de 2009? Justifique a resposta"

 

(via João Galamba, Jugular)

Nuno Serra às 16:15 | link do post | comentar

Da integridade política que se espera de um presidente

Disse Cavaco Silva, na primeira intervenção do debate com Manuel Alegre: “Há aqui um ponto prévio, porque o doutor Manuel Alegre, durante pelo menos 50 vezes, me acusou de destruir o Estado social. E é uma afirmação falsa, sem qualquer fundamento. Eu tenho que demonstrar hoje, aqui, que ele andou a enganar os portugueses”. Mais tarde, abordado por uma mulher que se queixou de não ter dinheiro para alimentar o filho, o candidato recomendou: “vá a uma instituição de solidariedade que não seja do Estado". Em Aveiro, ao encontrar manifestantes que, à boleia da questão dos cortes nos contratos de associação, defendem o cheque-ensino, o ainda presidente considerou importante que «crianças, jovens, pais e professores venham para a rua para defender a sua escola» (palavras que nunca os estudantes do ensino público tiveram o "privilégio" de ouvir da boca de Cavaco).

 

O que mais "incomoda" em Cavaco Silva não é propriamente o seu entendimento acerca do Estado, da protecção social e dos serviços públicos (entendimento que é tão legítimo em democracia como o seu oposto). O que o verdadeiramente o desqualifica enquanto candidato à presidência da república, a par dos silêncios convenientes e das fugas ao debate democrático, é a mais despudorada falta de integridade para assumir ideologicamente – perante os eleitores – o que realmente pensa. Quem anda, afinal, a tentar enganar os portugueses?

Nuno Serra às 03:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 17.01.11

Cavaco e Alegre: entre a continuidade e a oportunidade de mudança

Atravessamos tempos de mudança. Aconteça o que acontecer no futuro mais próximo, a reconfiguração da Europa que hoje conhecemos é inevitável. Os resultados da cartilha económica aplicada à Grécia e à Irlanda (e que obstinadamente ameaça impor-se a outros países periféricos, como Portugal) conduzirão a um de dois cenários: o enfraquecimento (na melhor das hipóteses) do projecto europeu (com o estreitamento da zona euro); ou uma reinvenção da governação económica da Europa, capaz de reforçar o princípio do interesse comum e da coesão, e de pôr um fim à inconcebível subjugação dos Estados aos interesses especulativos dos mercados financeiros. Como certo temos, apenas, que não é possível prolongar indefinidamente o abismo austeritário, a cura de recessão com mais recessão.

 

O que está em jogo no dia 23 é, por isso, a escolha de um presidente consciente do "espírito do tempo" e dos dilemas que o mesmo comporta: a escolha entre a continuação da agonia (até ao colapso) e a consciência da oportunidade de mudança que a crise contém.

Por um conjunto muito simples de razões, o economista Cavaco Silva não é, decididamente, esse presidente. Acredita, apesar de toda a evidência acumulada, que a saída da crise está na prossecução do suicídio austeritário. Venera, com viscosa obediência, os ditames dos mercados financeiros (não sendo sequer capaz de neles distinguir o rosto da especulação, contrário aos próprios interesses do capital produtivo). Acolhe, convicta e complacentemente, o Cavalo de Tróia da destruição do Estado Social e dos serviços públicos, apresentando-se como uma espécie de provedor - em Belém - das Instituições Privadas de Solidariedade Social. Rodeado por acólitos das terapêuticas recessivas, o situacionismo, a passividade e a continuidade são o legado que podemos esperar de Cavaco. Um presidente integrado no regime económico vigente (o mesmo cidadão que se sentia “integrado no regime” político de Salazar), inapto, portanto, para lidar com a mudança.

 

Como refere André Freire em artigo hoje publicado, lembrando o caso do Presidente Lula (ex-operário e ex-sindicalista), para enfrentar os problemas com que nos deparamos não é preciso eleger um economista. Precisamos é de alguém capaz de pensar e agir perante os desafios, as injustiças e as contrariedades. De alguém que tenha consciência da natureza da crise e das formas de a superar. De alguém que saiba rodear-se de pessoas capazes de reflectir para lá das fronteiras do pensamento único, para lá dos limites da fracassada (e ruinosa) ortodoxia económica. De um presidente que saiba que as soluções se constroem em diálogo, capacidade crítica e abertura de pensamento. Esse presidente é Manuel Alegre e a sua eleição constituirá um importante sinal para os tempos próximos.

Nuno Serra às 19:11 | link do post | comentar

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