Se queremos um país novo

Se Portugal é sempre a nossa pergunta, em tempos de crise essa interrogação de todos os dias torna-se ainda mais urgente. O pior que podia acontecer neste momento seria enterrarmos a cabeça na areia e prolongarmos a fase de negação indefinidamente. Portugal não pode ser adiado, o país que queremos para todos não pode ficar para as calendas gregas. Se continuarmos a olhar para o lado, a assobiar o triste faduncho da “continuidade” e da “prudência” - isto é, dos “paninhos quentes” e dos “brandos costumes” -, não chegaremos a lado nenhum. Pior: chegaremos a um Portugal ainda mais desigual e descrente do que este que hoje temos. A grande crise é que o “politicamente correcto” só quer ver a realidade através das manchetes dos défices, dos sustos dos mercados financeiros, dos óculos do FMI. A grande crise é a crise da política.

Se continuamos a olhar para a política como o palco de uns tais “eles” - em vez do lugar de um “nós” onde caibam todos -, não há mudança possível. Sim: seremos cúmplices da crise se, sob as desculpas habituais de “eles são todos iguais”, “isto não há volta a dar-lhe”, “é só cada um por si”, acabarmos por encolher os ombros, ficar em casa, não escolher. Pois, falo das presidenciais que estão aí à porta.

Algumas vozes, sugestionadas porventura pela interpretação “técnica” que Cavaco Silva tem feito do cargo de Presidente, desvalorizam esse lugar-chave do nosso sistema político e tentam diminuir o carácter verdadeiramente decisivo das eleições de Janeiro. Se queremos um país novo, não podemos ir em cantigas dessas. A verdade é que um Presidente pode fazer a diferença - mas um Presidente com ideias e convicções, que represente todos a começar pelos sem-voz. Alguém que tenha a coragem de denunciar os problemas e a coragem de inspirar o país para as boas soluções.

Não precisamos de um Presidente de rígidos silêncios e frases feitas, permanentemente atrás do comboio da realidade. Não queremos um país-tabu onde o subtexto diz “mudemos uns números para que tudo fique na mesma”. Precisamos de ter na Presidência alguém capaz de cumprir o papel de moderador e mediador - e isso não se consegue, está visto, com um “falso neutro” barricado entre muros de pensamento mole, apontando para desérticos “consensos”. Para cumprir esse papel de equilibrador e inspirador, é necessário que haja na Presidência alguém com ideias claras, alguém que saiba falar com uns e outros, que saiba ouvir uns e outros, alguém capaz de usar palavras que digam e não apenas palavras que falem.

Em Janeiro, a escolha é muito clara. Começamos a mudança ou continuamos de braços cruzados à espera que o céu nos caia na cabeça? Contentamo-nos com a resignação tecnocrática ou votamos numa visão política, positiva, de transformação? Apoio Manuel Alegre porque está na hora de voltar a acreditar na política e na mudança. De voltar a viver a política como um lugar próximo de todos, um lugar de verdade e ideias apaixonadas. Não venceremos nenhuma crise com menos do que isto. Para pôr Portugal no futuro, temos de voltar às ideias que sonham e às palavras que transformam, e fazer da política aquilo que ela é: a viva possibilidade de um sempre-começo.

 

 

(no Público de 21 de Dezembro de 2010)

Jacinto Lucas Pires às 21:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)