Quarta-feira, 19.01.11

Poupava-se uma dinheirama

Escrevi hoje que Cavaco Silva tem optado nos últimos dias por uma estratégia marcada pela vitimização e pelo populismo, dando alguns exemplos. Não tinha ainda ouvido as declarações feitas pelo candidato do PSD e do PP em Coimbra, que raiam o insulto à democracia. E não falo do incentivo à manifestação das escolas privadas, depois de ter promulgado o diploma. Falo da afirmação chantagista de que, na situação económica e financeira em que Portugal se encontra, "prolongar a campanha tem custos muito elevados". E que tal ser um nadinha mais consequente e propôr a suspensão da democracia - por seis ou muitos meses? Poupava-se uma dinheirama.

Miguel Cardina às 00:09 | link do post | comentar
Terça-feira, 18.01.11

O que está em causa no dia 23

Cavaco sabe que de cada vez que abre a boca perde votos. Os últimos dias de campanha têm sido claros a esse respeito. Daí que se perceba de certa maneira esta fuga a uma entrevista à Antena 1. Pressentindo a possibilidade de uma segunda volta, o candidato do PSD e do PP tem vindo a dramatizar crescentemente o tom da campanha. Uma estratégia que se tem desenvolvido em torno de dois planos distintos mas convergentes.

 

O primeiro é o recurso à vitimização, próprio de quem se julga desobrigado de qualquer tipo de exame público. Ficámos sem perceber porque Cavaco comprou acções ao preço que só Oliveira e Costa podia comprar. Ficámos a saber que Cavaco passa férias com os homens fortes do BPN, entre os quais Oliveira e Costa e Francisco Fantasia, numa casa da qual não se recorda onde e quando fez a escritura. A esse escrutínio de amizades nebulosas tecidas em contexto político Cavaco chama "ataques de vil baixeza". Felizmente, neste caso da Aldeia da Coelha, Cavaco Silva já afirmou que dia 23 de Janeiro lerá as notícias e dará explicações. Aí está um motivo adicional para o país querer um segunda volta.

 

O segundo eixo da estratégia do candidato da direita passa pelo recurso continuado a afirmações de teor populista. O episódio recente em torno da pensão da sua mulher é revelador, tal como antes já havia sido revelador o apoio sonoro à campanha das sobras dos restaurantes ou o discurso de esmoler em Almada. Abordado por uma senhora que se queixava da sua parca reforma, Cavaco apontou para a mulher, referiu a sua pensão de 800 euros e informou que é ele que a sustenta. Os jornalistas esqueceram-se de perguntar à senhora qual o valor que mensalmente auferia, para que pudesse haver comparação. E também de aferir o estranho percurso contributivo da "mísera" professora universitária que ao fim de uma vida de descontos possui apenas aquele estipêndio. Cavaco, o homem que nesse dia elogiou o "povo simples" e dele disse fazer parte, esqueceu-se que o salário médio em Portugal não chega a esse valor e que um milhão e meio de pensionistas sobrevive com menos de 450 euros.

 

Este exercício de confronto entre o discurso e a realidade pode multiplicar-se e os seus resultados são esclarecedores. Assim, Cavaco, o homem que era primeiro-ministro quando ocorreram as célebres cargas policiais a estudantes, operários e utentes da Ponte 25 de Abril, e que se calou durante as manifestações de professores em 2008, incita agora os jovens a virem para a rua defender a "sua escola". Cavaco, o homem que tranquilizou a embaixada norte-americana quanto à "suavidade" da comunicação social portuguesa, fala em comício de uma suposta ausência de imagens sobre a sua campanha. Cavaco, o homem que anseia jurar a Constituição, tem palavras dúbias no seu manifesto eleitoral sobre o Serviço Nacional de Saúde. Cavaco, o homem que se vangloria de ter servido como intermediário do acordo PS / PSD para aprovação das medidas de austeridade, critica agora o esforço isolado imposto aos funcionários públicos, deixando no ar um silêncio subtil sobre a vontade de expandir os cortes salariais ao sector privado.

 

Mas o que está em causa no dia 23 não é apenas a necessidade de derrotar nas urnas o perfil seráfico e dúplice de Cavaco. É bem mais do que isso. É o confronto entre uma visão assistencialista do papel do Estado, reverente perante os mercados e a finança, e uma visão assente no conteúdo social da democracia, que encontra substância na candidatura de Manuel Alegre. Apesar de contar com o PS na sua lista de apoios, Alegre soube afirmar uma voz própria, frequentemente crítica do rumo governamental, e mostrou-se capaz de federar a esquerda - numa primeira ou numa segunda volta - em torno desta batalha concreta para um cargo que é unipessoal. Se Cavaco ganhar à primeira volta, estaremos a abrir caminho a um novo ciclo de hegemonia da direita que - com ou sem o FMI no país para ratificar as suas opções - não se coibirá de realizar um programa político privatizador e socialmente iníquo. Se Alegre passar à segunda volta, não só tem hipóteses de vencer com o apoio dos restantes candidatos de esquerda, como estaremos melhor preparados para construir uma necessária alternativa política e social para os tempos que aí vêm.

Miguel Cardina às 15:31 | link do post | comentar
Segunda-feira, 17.01.11

Isto já não é "gerir o silêncio"; é arrastar-se atrás dele

Antena 1 lamenta ausência de Cavaco em entrevista à “rádio paga por todos nós”

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Miguel Cardina às 21:44 | link do post | comentar
Domingo, 16.01.11

Credibilidade e honestidade

Ligação directa para o que escreve Sérgio Lavos no Arrastão:

 

1. É um mistério a razão para o "candidato do povo" querer criar um ministério do Mar - parece que a eleição a que concorre é para a Presidência da República, certo? E, além disso, não foi o candidato Cavaco que em tempos teve nas mãos o poder de criar esse ministério, tendo acabado por se limitar a obedecer às directivas da CEE, sem rebuço, levando ao rápido declínio da frota pesqueira e de toda a economia associada a esse recurso natural, desígnio nacional, o mar?

 

2. Por outro lado, fiquei contente por saber que algumas das medidas de austeridade, aprovadas pelo Governo mas também por um dos partidos que apoia o "candidato duplamente honesto", tão criticadas há dois dias, afinal deveriam ser estendidas aos privados. Assim sim, sabemos aquilo com que podemos contar: Cavaco presidente em segundo mandato mais um governo Passos Coelho significa ainda mais austeridade, a torto e a direito, no público e no privado. Estes esclarecimentos são sempre úteis. Para que conste.

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Miguel Cardina às 13:27 | link do post | comentar
Sexta-feira, 14.01.11

Haverá explicações na 2.ª volta

 

 

 

 

Miguel Cardina às 16:31 | link do post | comentar
Sábado, 08.01.11

O esmoler

O candidato presidencial Cavaco Silva foi hoje abordado por uma mulher que se queixou de não ter dinheiro para alimentar o filho, a quem recomendou que procurasse "uma instituição de solidariedade que não seja do Estado".

 

Quando a situação é de socorro qualquer extintor é importante, da AMI à Linha Nacional de Emergência Social (proporcionada pela Segurança Social, curiosamente). Mas é reveladora esta forma de olhar o Estado como uma entidade que no fundo não serve para cuidar dos reais e pungentes problemas das pessoas. O Estado, para Cavaco, é uma "pessoa de mal", um empecilho, uma gordura social que é preciso ir removendo. E o combate contra a pobreza resume-se à lógica do extintor, fundamental mas redutora. Um presidente que não consegue perceber a relação do fenómeno da pobreza com a necessidade de mais e melhores políticas de inclusão social é um presidente que não serve. E uma sociedade como a nossa - com uma forte incidência de baixos salários, com uma taxa de desemprego a crescer, com uma gritante desigualdade de rendimentos - não ficará melhor com a sua eleição. Do que precisamos é de alguém que não tenha medo de defender o papel do Estado na promoção de políticas de igualdade e de solidariedade; não de um esmoler de vistas curtas.

Miguel Cardina às 18:28 | link do post | comentar
Sexta-feira, 07.01.11

Leituras

As presidenciais da crise, por Sandra Monteiro.

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Miguel Cardina às 12:22 | link do post | comentar

Rumo a um Serviço Assistencialista de Saúde?

 

Diz Cavaco Silva no seu manifesto de candidatura:

 

«O debate em torno do Serviço Nacional de Saúde não deve ser marcado por preconceitos ideológicos, de um lado e de outro. Neste domínio, mais do que questionar a existência ou não do Serviço Nacional de Saúde – algo que, verdadeiramente, não importa sequer debater -, o que interessa é discutir que formas existem para garantir a sua sustentabilidade, garantindo o acesso de todos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados de saúde.»

 

Atente-se nos bolds. Em primeiro lugar, a ideia de que o debate sobre o SNS não deve ser marcado por “preconceitos ideológicos”. Ao considerar a “ideologia” – a política, em suma – como preconceituosa, Cavaco está a revelar o modo como ele próprio a entende: enquanto tarefa de “gestão” praticada por um estrito e opaco conjunto de tecnocratas. A expressão que se segue - “de um lado e de outro” - ajuda a salientar o carácter aparentemente neutral da actividade. Como se, no fundo, o que estivesse em causa fosse traçar uma bissectriz entre duas posições extremadas e encontrar a recomendável solução intermédia. Um meio-termo a-ideológico que neste caso concreto não passa de fumaça retórica. A defesa da integridade do SNS é uma posição extremada? O outro pólo de radicalismo é o aniquilamento completo do sistema? O meio-termo exige o financiamento da oferta privada de saúde de modo a que se possa criar um sistema paralelo robusto e competitivo?

 

No fundo, Cavaco Silva sabe que a saúde está na mira do apetite privado e o apetite privado sabe que tem em Cavaco o seu representante. Só que há trabalho a fazer. Num país onde ainda persistem fortes bolsas de pobreza e insegurança, o Serviço Nacional de Saúde constitui uma das mais fortes traves de confiança das populações. Portanto, convém frisar bem que a sua existência “não importa sequer debater”. O que importa debater é a sua “sustentabilidade”. Só que Cavaco não pretende falar da suborçamentação ou do despesismo no quadro de um serviço de saúde público e universal. Pretende, isso sim, terminar com uma pirueta arriscada, sugerindo que se calibre a busca de formas de sustentabilidade com a garantia de acesso à saúde de todos “independentemente da sua condição económica". Estará Cavaco a elogiar um sistema que se propõe tratar todos os cidadãos por igual, independentemente do seu rendimento? Ou, pelo contrário, considera que o Estado deve acarinhar o florescimento   de uma alargada rede privada de saúde, que necessariamente remeterá o tratamento dos pobres para um serviço público de saúde mínimo e descapitalizado?

 

Quer-me parecer que a segunda hipótese é a que mais se aproxima do espírito do parágrafo. No fundo, o trecho está bem mais próximo do projecto de revisão constitucional do PSD do que da Constituição que Cavaco pretende jurar e fazer cumprir.

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Miguel Cardina às 01:58 | link do post | comentar
Quinta-feira, 06.01.11

Entrevista a Alegre

Hoje, às 21 horas, na RTP1, Manuel Alegre é entrevistado por Judite de Sousa.

A não perder.

Miguel Cardina às 18:50 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Olhos nos olhos

 

Cavaco Silva, o candidato que não olha os seus adversários nos olhos, resolveu mandar um conselheiro seu explicar aquilo que só ele podia explicar. Só é pena que Alexandre Relvas tenha falado muito e explicado nada. A candidatura de Manuel Alegre faz bem em não se intimidar perante acusações de "baixa política" e em exigir os esclarecimentos devidos. Se nada tem a esconder, talvez Cavaco devesse dar ouvidos àqueles que no seu campo político também já clamam por explicações, cientes de que o caso nada de bom traz à imagem esfíngica que o candidato da direita gosta de cultivar. É que ainda há muita política para discutir, e queimar tempo é próprio dos jogadores com falta de confiança nas suas capacidades.

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Miguel Cardina às 12:22 | link do post | comentar
Quarta-feira, 05.01.11

E que tal explicar a coisa?

 

Daniel Oliveira:

 

«Não vale a pena Cavaco Silva continuar a fingir que o que está a ser debatido são poupanças familiares depositadas num banco. Não é disso que se trata. O que está a ser discutido é o negócio da venda das suas ações da Sociedade Lusa de Negócios, detentora daquele banco, com contornos pouco claros e que deram a si e à sua filha um lucro de 147,5 mil euros e de 209,4 mil euros, respetivamente. Cavaco Silva vendeu 105.378 acções da SLN, que comprara a um euro cada, em 2001, por 2,4 euros, no final de 2003. O mais importante: esta inexplicável valorização foi determinada por contrato, já que a sociedade não estava cotada na bolsa. É esse contrato, elaborado por uma administração composta por pessoas que lhe são próximas (uma delas até foi, depois disto, nomeada por ele para o Conselho de Estado), que se quer conhecer. Não parece legítima esta exigência?»

 

Vale a pena ler o texto todo.

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Miguel Cardina às 12:58 | link do post | comentar
Terça-feira, 04.01.11

Remendos e Côdeas

Há fome em Portugal. Quando a realidade se nos apresenta assim, como um murro, é difícil elaborar raciocínios que nos permitam ver o fenómeno com algum distanciamento crítico. Porque distanciamento é tudo aquilo que não se consegue ter quando o que está em causa é garantir a sobrevivência. O problema é quando os restos dos restaurantes aparecem a fazer a vez do Estado Social, substituindo a lógica da solidariedade e da efectivação dos direitos por um modelo caritativo entendido como o paliativo possível nestes tempos de crise.

 

A presença do actual Presidente da República na sessão de apresentação da campanha "Direito à Alimentação", no Estoril, reforça essa leitura. Cavaco falou aí do "dever moral" que constituía o combate a este "flagelo", o que é uma formulação que merece toda a concordância. Mas já que se pretende falar de pobreza, não seria também importante ouvir Cavaco falar dos cortes no abono de família, no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nas bolsas de estudo? Ou comentar as propostas de revisão constitucional do seu partido, que apontam para a privatização da saúde e da educação? Ou confrontar os economistas da sua Comissão de Honra com a defesa do corte nos ordenados e de políticas recessivas que conduzem e conduzirão a mais desemprego? Ou questionar a insensibilidade dos patrões quando afirmam não existirem condições para cumprir o que ficou acordado em sede de concertação social, ou seja, o aumento do salário mínimo para 500 euros? Ou comentar a crescente desigualdade de rendimentos no país?

 

A luta contra o desperdício alimentar - como contra qualquer tipo de desperdício - é virtuosa em si mesma. Mas entendê-la como solução para os problemas da pobreza é optar por fugir àquelas questões, as que verdadeiramente traçam uma linha divisória entre quem defende a justiça social e quem defende a caridade empresarial. Ao contrário do que se depreende pelo título da iniciativa apadrinhada por Cavaco, esta não visa concretizar o "Direito à Alimentação" dos portugueses. "Direito à Alimentação" - como recentemente afirmou Bruto da Costa ao DN - é dispor da liberdade de comprar e escolher os alimentos que se vão ingerir. E também não se trata de "combater a pobreza": essa combate-se recusando a dependência e valorizando o Estado Social.

Miguel Cardina às 23:31 | link do post | comentar

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