Domingo, 23.01.11

Coisa nunca vista em noite de eleições: o discurso ressabiado de uma vitória (quase) de Pirro

Ouvimos Cavaco Silva nos seus discursos de vitória no CCB, para a Imprensa e para uma escassa centena e meia de apoiantes, e quase não acreditámos no que ouvimos.

 

Um discurso ressabiado e vingativo, coisa nunca vista em noite eleitoral, a ajustar contas com todos os outros cinco candidatos, acusados de terem descido como nunca à “vil baixeza” de uma campanha feita de “ataques” e “calúnias” à sua pessoa - ele,  o candidato da “dignidade” que venceu -, e desafiando a comunicação social a revelar os que estariam por detrás da montagem dessa operação de calúnias.

 

Nem sequer esqueceu a demagogia barata,  já usada na campanha, de se afirmar como o primeiro candidato a vencer umas eleições sem usar cartazes. Mas claro que se “esqueceu” de explicar aos portugueses por que foi  a sua campanha a mais cara, comparativamente com as  dos restantes candidatos.

 

Ou seja, Cavaco Silva atirou a pedra e mostrou a mão quando os outros candidatos já não se podiam sequer defender, feitos os discursos finais para as televisões e encerrados os seus “tempos de antena”. Isto depois de ter passado toda a campanha a recusar esclarecer como devia,  por razões reforçadas sendo candidato a um cargo político unipessoal, os factos indiciadores das suas ligações perigosas.

 

Que diferença da dignidade manifestada no discurso de Manuel Alegre em que este assumiu a sua derrota política, mas também com clareza o seu compromisso combatente pelo Estado Social!

 

Fica um mistério para desvendar nos próximos tempos: como é que um candidato assim, com um tamanho azedume no discurso da sua eleição, pode pretender assumir-se como o Presidente de “todos os portugueses” e da “estabilidade”, como referiu nas banalidades do costume com que completou o discurso.

 

Mas a má disposição de Cavaco Silva, a falta de grandeza e dignidade no seu discurso aos portugueses, o azedume vingativo no tratamento dos adversários e a falta de entusiasmo dos apoiantes, têm certamente uma explicação visível nos resultados eleitorais e na circunstância política da sua eleição:

 

- Cavaco Silva e a direita não alcançaram uma vitória com a dimensão a que aspiravam para os seus projectos de conquista da governação, ganhando com 53% dos votos (50,5% em 2006), mas com menos cerca de 543 000 votos que em 2006.

 

- Pior do que isso, a abstenção foi a grande vencedora da noite (53,4%), batendo o recorde em todas as eleições presidenciais, ultrapassando mesmo os 50% da eleição de Jorge Sampaio em 2001. Ou seja, o número de portugueses que elegeram Cavaco Silva (cerca de 2 243 000) representa apenas 23% dos eleitores, menos de um quarto, e o numero total de votantes nesta eleição (mesmo incluindo os 277 000 votos brancos e nulos, que não são considerados votos expressos) representa apenas 46,6% dos eleitores.

 

- A campanha eleitoral apeou Cavaco Silva do pedestal em que sempre se colocou, acima dos comuns mortais (a narrativa do “filho do povo” serve-lhe apenas para exaltar o seu mérito da subida aos céus…), ao pôr a nu as ligações perigosas e os proveitos nunca explicados que o relacionam com os seus amigos envolvidos na gestão danosa do BPN. E apenas pode culpar-se a si próprio, pelo modo como fugiu à natural prestação de contas, quanto às consequências que daí advirão para a sua fragilização da sua posição futura como actor político.

 

Haverá tempo para analisarmos os resultados eleitorais, o falhanço inaceitável dessa maravilha tecnológica que era o cartão do cidadão, o significado da abstenção  política e do voto de protesto no “inverno do nosso descontentamento”.

 

Todavia, e desde já, o facto mais surpreendente da noite eleitoral é esta revelação da fraqueza  e perturbação de um candidato que, vencendo, revela no seu discurso que parte para o seu último mandato,  com legitimidade, mas com desconforto e sem o apoio maioritário desejado. O seu ressabiamento vingativo é a manifestação da consciência da sua fragilidade.

 

O discurso cauteloso de Passos Coelho, evitando cavalgar a vitória cavaquista, em contraste com a gulodice mediática indisfarçável de Paulo Portas, mostra que o partido maioritário da direita percebeu, como Cavaco, o recado mais profundo da maioria dos portugueses nesta eleição em tempos de crise.

Henrique Sousa às 23:12 | link do post | comentar
Sexta-feira, 21.01.11

Da racionalidade política à esquerda

Racionalidade política, precisa-se, à esquerda, como bússola de navegação por entre a espuma dos dias, as ideias feitas e as correntes de opinião formatadas. Agora, para não desistir de votar. Depois, para olhar o futuro.

 

O excelente artigo de Daniel Oliveira no Expresso de hoje - "O Que Nos Espera" - é um lúcido exercício dessa racionalidade política à esquerda, tão necessária agora como depois das presidenciais. Citamos dois extractos:

 

"Ainda Manuel Alegre não tinha apresentado a sua candidatura e já o spin para consumo mediático estava feito: o seu problema é ser apoiado pelo PS e pelo BE. Um pormenor sobre as primeiras voltas das presidenciais; Eanes foi apoiado por PS, PPPD e CDS na primeira candidatura e por PS e PCP na segunda; Zenha por PRD e PCP; Soares por PS e PSD na recandidatura; Sampaio por PS, PCP (em todos os casos sempre com desistência do candidato comunista) e partidos que hoje estão no Bloco quando concorreu contra Cavaco. Os candidatos de direita foram quase sempre apoiados por PSD e CDS. O problema de Alegre só é problema porque alguém decidiu que o que quase sempre aconteceu agora é estranho. Mais: há cinco anos o escândalo era a esquerda não se entender no apoio a um candidato. Agora, curiosamente, é o oposto.

 

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As críticas que fez ao Governo são outro argumento usado contra Alegre. Curiosamente, a sua proximidade ao PS também. Às vezes pelas mesmas pessoas. Mas esta independência de Alegre, que consegue irritar todos os lados, é a melhor garantia que pode dar para o cargo a que se candidata.  Ninguém, no seu perfeito juízo, acredita que Alegre representará um partido em Belém. Mas todos sabem que que representará um olhar sobre o papel do Estado na sociedade. Com o extremismo ideológico e económico que tomou conta da direita portuguesa a caminho do poder, é tudo o que pode restar para moderar o que aí vem. Se os eleitores de esquerda não o perceberem e ficarem em casa terão cinco longos anos para o confirmar." (sublinhado nosso)

Henrique Sousa às 13:00 | link do post | comentar

Acordai!

Porque segunda-feira é tarde.

 

E que as diferenças e divisões à esquerda, o capital acumulado de erros e de queixas, as mágoas com a qualidade da nossa democracia, o descontentamento com as elites políticas que nos têm desgovernado, o quotidiano da crise que nos toca, não nos tirem a lucidez sobre o essencial:

 

Ou barramos com o voto o caminho ao candidato da direita unificada, que pede respeitinho pelos mercados financeiros e pelo FMI, que quer acelerar a destruição do Estado Social e a sua substituição por um Estado assistencial, que representa o pior situacionismo do bloco central de interesses, que se intitula o mais sério da sua rua mas não esclarece nunca as suas ligações perigosas, ou na segunda-feira acordaremos com o País mais aprisionado neste abraço fatal entre a política e os negócios.

 

Todos os votos contam para obrigar a passagem à segunda volta, e então juntar forças na derrota de Cavaco Silva. A abstenção descontente, legítima embora como opção, favorece de facto a vitória do candidato da direita á primeira volta.  Então acordaríamos pior na segunda-feira.

  

E, porque amanhã é sábado, aqui fica a propósito uma bela interpretação de Teresa Salgueiro da canção Acordai, de Fernando Lopes Graça:

 

 

 

Henrique Sousa às 10:00 | link do post | comentar
Quinta-feira, 20.01.11

O medo como arma política

 

 

Cavaco Silva, temendo o resultado de uma segunda volta, inventou dois novos argumentos que têm como denominador comum a pressão do medo sobre os eleitores:

 

- Esgrime  mentirosamente o papão dos mercados financeiros e do risco de elevação das taxas de juro se houver segunda volta e se não for eleito, quando antes pediu respeitinho pelos mercados financeiros no debate público das medidas anti-crise para não os ofender, pois isso causaria subidas das taxas de juro da dívida pública. O que aconselharia, na mesma lógica, a contenção verbal que agora esqueceu.

 

- Agita demagogicamente os custos de uma segunda volta das eleições como incomportáveis para um País em crise. Mas sabe muito bem, como economista, que os poucos milhões de euros que custa uma segunda volta das presidenciais são uma gota de água no mar encapelado das dificuldades do País, comparados com o custo para os contribuintes do buraco de 5 000 milhões de euros que os seus amigos causaram com uma gestão danosa e mafiosa no BPN.

 

É verdade. A democracia tem custos. Mas é preferível à paz dos cemitérios das ditaduras. Votamos, escolhemos e sofremos as consequências das nossas opções. 

 

Só a pressa de assegurar o poder a qualquer preço, o pior eleitoralismo do "vale tudo", a exploração sem escrúpulos da ignorância política de alguns e do estado de alarme social motivado pela crise, podem explicar que um candidato use tais argumentos. Recorrendo ao medo como substituto da racionalidade do debate político e assim enfraquecendo uma democracia já erodida nos seus créditos pelo bloco central de interesses de que é padrinho há muitos anos e pela promiscuidade a que não é alheio entre política e negócios.

 

Como lucidamente caracterizou ontem Manuel Alegre, "o principal activo político de Cavaco Silva é o medo que ele próprio inculca aos portugueses".

 

Não deixemos que o medo vença a cidadania nestas eleições!

 

 

Henrique Sousa às 23:33 | link do post | comentar
Quarta-feira, 19.01.11

Manifestação de trabalhadores contra cortes salariais e o comportamento da PSP: uma diferença essencial entre Cavaco Silva e Manuel Alegre

O candidato Cavaco Silva, que se apressou a manifestar apoio e incentivar os manifestantes contra os cortes dos apoios estatais ao ensino particular e cooperativo (cuja lei o Cavaco Silva Presidente promulgou chamando a si os louros das alterações realizadas na lei), foi o mesmo que deliberadamente guardou silêncio e recusou comentar a inaceitável e precipitada actuação da PSP contra uma manifestação de trabalhadores que protestavam contra os cortes salariais da Função Pública junto à residência oficial do Primeiro-Ministro, em que procedeu à detenção de sindicalistas. Enquanto Manuel Alegre não hesitou em prontamente criticar esta actuação da PSP, em coerência com as suas comprovadas convicções democráticas e com o seu compromisso com os trabalhadores publicamente assumido (ver aqui o seu texto).

 

Ficou assim mais patente e clara a linha divisória entre os dois candidatos. E neste caso concreto, reconheça-se que Cavaco Silva foi pelo menos coerente, não assumindo a duplicidade frequente que o caracteriza. Afinal, quantas vezes ouvimos, durante o seu mandato presidencial ou agora em campanha, manifestar solidariedade com os trabalhadores ameaçados nos seus direitos ou saudar a legitimidade dos seus protestos? E quem não recorda o seu comportamento repressivo e autoritário enquanto governante, quando contestado, que se tornou insuportável ao ponto de a maioria do País se ter então fartado dele, coisa agora menos lembrada?

 

Finalmente,quanto à informação sobre os acontecimentos aqui referidos, valerá a pena consultar o relato do Público, da TSF (com declarações de Carvalho da Silva) e do SPGL (com uma colecção de fotos dos acontecimentos). E quanto ao próximo dia 23, abrir os olhos e ver, enquanto é tempo...

Henrique Sousa às 13:50 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Para além das sondagens, lutar até ao dia 23 por escolhas lúcidas que sustentem os combates de esquerda no futuro

Este já não é o tempo de gastarmos mais tempo com as sondagens. As sondagens, tecnicamente defeituosas ou não, permitem ler tendências, não antecipam resultados. A desigualdade de condições políticas e de recursos das candidaturas em presença é conhecida desde o início desta caminhada. Há muito que sabemos que estas eleições são uma batalha desigual entre um Presidente candidato que luta pela reeleição, levado num andor e procurando colher em seu benefício o mal e a caramunha, e um candidato como Alegre, que procura agrupar as forças de uma esquerda dividida e, sendo do partido do Governo, se tem criticamente distanciado das suas escolhas políticas apadrinhadas por Cavaco Silva. 

 

Confusos? Mas isto faz parte do contexto das escolhas políticas destas eleições. E esta luta eleitoral, sendo desigual, não pode ser abandonada à esquerda, em nome das Presidenciais e também em nome dos nossos combates futuros por uma democracia social e política que não seja secundarizada e subordinada aos mercados financeiros e duma política que não esteja capturada pelos negócios.

 

Acresce que a sondagem da Marktest/Diário Económico/TSF hoje divulgada mantém um erro inconcebível num trabalho de especialistas: continua a considerar como votos validamente expressos, nas presidenciais, os nulos e os brancos. Como lucidamente observa Pedro Magalhães no seu blogue Margens de Erro.

 

Até ao dia 23 cumpre-nos contribuir para que as escolhas dos cidadãos sejam tão informadas quanto for possível, num quadro eleitoral muito perturbado e condicionado pela conjuntura política. E quanto melhor for o resultado de Manuel Alegre (e de outros candidatos à esquerda, como Francisco Lopes), em melhores condições estará a esquerda para travar os combates seguintes. Para que a crise económica não seja o alibi dos poderosos para nos empurrarem mais e mais para uma crise social e política sem precedentes.

Henrique Sousa às 11:52 | link do post | comentar

Desdobramento de personalidade ou duplicidade de um "filho do povo" ?

Cavaco Silva candidato apoiou e saudou as manifestações contra os cortes estatais ao ensino privado e cooperativo. Cavaco Silva Presidente promulgou legislação que é contestada e, no seu portal oficial, explicou em comunicado que o fez, depois de realizadas conversações entre Belém e o Governo, porque: "Tendo em conta a evolução verificada, que contempla de modo satisfatório as principais dúvidas que a versão inicial suscitara, entendeu o Presidente da República promulgar o diploma".

 

Este comportamento não é original:

 

Como é sabido, o candidato Cavaco Silva tem piscado o olho aos portugueses. a quem são impostos pesados sacrifícios pelas medidas dos PECs e do Orçamento de Estado  que o Cavaco Silva Presidente se ufanou de ter apoiado e apadrinhado, na base dos acordos entre PS e PSD.

 

Será  um caso de carácter (que nos perdoe a sensibilidade do Presidente/candidato), ou seja, de duplicidade, ou um caso de desdobramento de personalidade, em que o Dr. Jekyll não sabe o que faz o Mr. Hyde? 

 

Henrique Sousa às 10:00 | link do post | comentar
Terça-feira, 18.01.11

Defeito ou feitio, "memória curta" ou falta de vergonha?

1. Parte I - Declaração de Cavaco Silva hoje:

 

"Nesta campanha nunca caluniei ninguém, nunca ataquei ninguém."

 

2. Parte II - Declaração solene à imprensa do seu porta-voz, Alexandre Relvas, na sede nacional da candidatura, sem direito a perguntas, no passado dia 5 de Janeiro (ver aqui a notícia completa):

 

O porta-voz acusou Alegre de protagonizar "ataques desonestos e cobardes à honra pessoal" de Cavaco Silva, ataques no seu dizer "inaceitáveis". "Quem faz uma campanha suja viola o mais elementar dever de decência democrática" (sublinhados nossos).

 

3. Parte III - Três interrogações, sem mais comentários:

 

Uma declaração formal à imprensa do porta-voz da candidatura não tem o prévio acordo do candidato e não exprime a sua posição? Então, já teria demitido Miguel Relvas.

 

Ou trata-se do expediente sonso já usado por Cavaco Silva noutras ocasiões, para atirar a pedra escondendo a mão, como no conhecido e mal explicado caso das "escutas" em Belém?

 

Afinal, isto é um caso de "memória curta" ou falta de vergonha,  defeito ou feitio?

Henrique Sousa às 23:47 | link do post | comentar
Segunda-feira, 17.01.11

Afinal Cavaco Silva queria mais!

Lágrimas de crocodilo

A imprensa noticiou diligentemente declarações de Cavaco Silva nos Arcos de Valdevez em que este, com o seu jogo de banalidades, equívocos e ambiguidades habituais, teria criticado os cortes salariais na função pública ao mencionar piedosamente no seu discurso os «funcionários públicos duramente atingidos nesta crise».

 

Afinal, logo no dia seguinte, em Penafiel, continuando embora com o seu estilo discursivo de oráculo, cujas distintas interpretações acertam sempre no resultado, viu-se obrigado a dar um passo em frente na explicação. Vejamos as suas declarações, noticiadas pelo DN (ver aqui) e por outros jornais:

 

"Largos milhares de portugueses" do sector privado ficaram fora dessa tributação, lembrou o candidato a Belém em Penafiel. "Não se sabe que as reduções de rendimentos só foram aplicadas a funcionários públicos? Não percebo...", disse Cavaco perante as perguntas dos jornalistas. Interpelado sobre a possibilidade de cortes salariais para escalões mais elevados de rendimentos, através do IRS, respondeu: "Não há formas diferentes de fazer a questão, que não seja pela via dos cortes salariais".

Ou seja: este candidato que é também Presidente da República há cinco anos, que se fartou de chamar a si os louros dos acordos PS/PSD para a aprovação dos PECs governativos e do Orçamento de Estado de má mémória, resolveu (eleições obrigam!) dar uma no cravo e três na ferradura:

 

Uma lágrima de crocodilo do padrinho dos PECs para os funcionários públicos duramente flagelados, logo seguida da insinuação (porque clareza não, várias portas de saída ajudam sempre...) de que combater as injustiças e desigualdades seria, pasme-se, não anular os cortes salariais na funçãó pública, mas estender os cortes aos trabalhadores do sector privado, logo esclarecendo que tributar mais os altos rendimentos em sede de IRS, isso não.

Afinal, não é isto que as confederações patronais também querem, o direito de reduzirem os salários em todo o lado, rasgando acordos e contratos, em nome da sacrossanta competitividade terceiro-mundista a que aspiram?

Henrique Sousa às 15:06 | link do post | comentar

O paradoxo político das Presidenciais

 

Paradoxos I

Quem escolhe Cavaco Silva vota no candidato de uma coligação de partidos (PSD e CDS-PP), que se prepara para lhes entregar a governação, que está de acordo com os PECs e as orientações e medidas do Governo de Sócrates e da UE, que acha que é preciso mostrar respeitinho pelos mercados na orientação política e não ofender os seus bons sentimentos. Ou seja, a eleição de Cavaco Silva significa mais do mesmo e a experiência e saber de que se ufana serão presente envenenado para os portugueses. Os remédios serão ainda piores. Votar nele é patrocinar o bloco central de interesses, que sempre assumiu, em versão agravada. Já prometeu salvar a Nação há 5 anos com o seu proclamado saber de experiência e economia feito. Viu-se. É pelo assistencialismo social como substituto do Estado Social. Para ele, o País está errado, os mercados financeiros não. Os trabalhadores e o trabalho causam-lhe urticária, a não ser se modestos, respeitadores, veneradores e obrigados. Talvez por isso use pouco tais palavras. Sente-se mais confortável na ostentação da caridade social, na companhia dos poderosos (ver Comissão de Honra) e em ligações perigosas que continuam por explicar.

 

Quem escolhe Manuel Alegre, sabe que o candidato é apoiado pelo partido do Governo e pelo Primeiro-Ministro que tem a pouco honrosa folha de serviços conhecida e também pelo BE, que assume uma oposição frontal a este Governo. Mas sabe também que é um candidato de uma coligação de cidadãos apoiada por partidos, que não abençoou os PECs, que não considera a actual orientação política do País e da UE capaz de enfrentar a crise, que tem recusado abençoar a política do PS, marca distância crítica em relação ao Governo e se assume como um socialista independente nas ideias e na sua prática política. É pelo Estado Social e pela sua universalidade. Esteve frontalmente contra a revisão anti-laboral do Código do Trabalho. Assume, na contradição dos apoios partidários recebidos, a coerência de defender o diálogo e a convergência das esquerdas.

 

Os outros candidatos, cumprem os respectivos papéis. Coelho é, nas suas próprias palavras, um outsider populista que tem o mérito de exprimir desassombradamente, nas contradições do que defende e propõe,  a revolta contra os poderosos. Defensor Moura já justificou a candidatura pelo modo frontal como num debate televisivo apeou Cavaco Silva do pedestal de que não queria sair e pôs à mostra os seus pés de barro. Francisco Lopes cumpre profissionalmente a sua missão partidária de mobilizar o eleitorado do PCP e de aproveitar a campanha presidencial para divulgar os pontos de vista do partido; em rigor, é um partido “candidato” a um órgão unipessoal para ocupar espaço de debate. Fernando Nobre vai evidenciando na campanha a diferença entre ser um destacado activista social e ser candidato a um cargo político, ou, dito de outro modo, ilustra bem nestas eleições a aplicação do princípio de Peter, tendo dado um passo maior que a sua perna e revelando a enorme fragilidade do seu pensamento e posicionamento políticos.

 

Em conclusão:

 

Estas eleições presidenciais contrariam a lógica formal dos alinhamentos partidários e exigem escolhas cidadãs voltadas para a substância política das coisas.

 

Ou seja, quem vote Cavaco vota, mesmo com as melhores intenções (e delas está o inferno cheio), no agravamento do situacionismo de interesses financeiros e económicos instalados e das desigualdades que estão na origem da crise actual.

 

Quem vote em Alegre, filiado no partido do Governo, vota num cidadão que se opõe às escolhas que têm comandado a política portuguesa, que assume um claro compromisso de fidelidade à Constituição actual, à defesa do Estado Social e se opõe às orientações neoliberais e ao comando da política pelos mercados financeiros.

 

O voto em Manuel Alegre interessa, além do eleitorado socialista, a todos quantos não concordam com o rumo político do País dos últimos anos, comandado por PS e PSD, e desejam construir uma alternativa.

 

O voto em Cavaco Silva é um voto na continuidade e agravamento da orientação política do bloco central de interesses que conduziu o País à desastrosa situação actual e a promessa de aceleração de uma crise política anunciada e desejada pelo PSD e pelo CDS-PP.

 

Eis o paradoxo das eleições presidenciais e das escolhas políticas em jogo. Oxalá que os últimos dias desta campanha eleitoral diminuída pelo impacto da crise e empobrecida no debate político tornem mais claras, por debaixo das aparências e dos alinhamentos partidários formais, as escolhas reais que se perfilam e as suas consequências para o nosso futuro colectivo.

Henrique Sousa às 12:29 | link do post | comentar
Quarta-feira, 12.01.11

Era uma vez alguém que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e era o mais sério da sua rua

Esta campanha eleitoral está a permitir, a quem tiver os olhos bem abertos, apear do pedestal uma figura que há muito ocupa os palcos da política profissional (mas não é político, isso é para os outros) e reduzi-la à sua dimensão de comum mortal.

 

Cavaco Silva, apesar de levado num andor, usando e abusando da condição de Presidente, principal beneficiário da crise e dos seus efeitos, aproveitando o "respeitinho" pela autoridade que ainda permanece nos genes lusitanos inoculado por cinco décadas de ditadura, de que a conhecida complacência mediática é um mero exemplo (as perguntas difíceis são para os outros), já mostrou abundantemente o seu desconforto com o contraditório.

 

 O seu jeito de monarca sem trono não coexiste bem com a necessária colocação democrática no mesmo plano dos demais candidatos. Gosta da homenagem e da procissão, não de debate e confrontação de ideias e críticas. O que aliás está em correspondência com a sua comovedora tese tecnocrática de reduzir a diferença política e de políticas a um mero debate entre técnicos competentes que acabariam todos de mãos dadas com a mesma solução (desde que seja a dele).

 

 Dois factos desta campanha eleitoral ilustram o seu cariz autoritário e imperial:

 

1. Perante a exigência pública de que esclareça as suas relações com o BPN e os seus accionistas a propósito da compra e venda de um lote de acções, afirmou presunçosamente ser o mais sério do País e arredores e escusou-se (desde 2008, quando o Expresso levantou o problema) a esclarecer simplesmente a quem comprou e a quem vendeu e o contexto do negócio, preferindo optar pelo insulto pessoal ao seu directo opositor Manuel Alegre, delegando nos seus fiéis explicações avulsas e esfarrapadas e confiando nos elevados níveis de aceitação social do desenrascanço, do favor, e da cunha, que são o caldo de cultura da mistura entre política e negócios, para ultrapassar incólume esta questão.  

 

Para o promotor da política do betão, das obras para encher o olho, das parcerias público-privadas (lembram-se do negócio da Lusoponte e do seu ministro das Obras Públicas que agora é presidente desse grande negócio?), do cultor de um autoritarismo que se tornou insuportável (e que a memória curta de alguns agora esquece), do discurso do bom aluno europeu que abdicou de facto da defesa dos recursos nacionais, da sua governação como um período de ouro, o erro não existe, a culpa pessoal também não.

 

Cavaco Silva parece incapaz de aceitar que a exigência legítima do esclarecimento do seu negócio de acções do BPN é um problema político e uma questão de escrutínio público de um candidato ao alto cargo de Presidente da República, não é nenhuma chicana pessoal. Mas não merece o benefício da dúvida, com a experiência que acumulou e com a superior inteligência de que se reclama, quanto à incompreensão de que esta questão se tornou um tema relevante de campanha porque se relaciona com um Banco onde foi praticada uma gestão danosa da responsabilidade de amigos seus, administradores e accionistas, de carácter criminoso, cujas consequências vão ser pagas duramente e ao longo de vários anos pelos contribuintes.

 

2. Perante a proposta de Manuel Alegre de que, enquanto Presidente, se envolvesse activamente em diligências, junto de outros Estados e instâncias internacionais, para abrandar a pressão política e especulativa sobre Portugal, acusou Manuel Alegre de ignorância sobre as funções e competências do Presidente da República, recusando ter qualquer papel neste domínio.

 

Quem o viu e ouviu e quem o ouve e vê!

 

 Na campanha eleitoral anterior para a Presidência, defendeu a cooperação estratégica com o Governo (ou seja, uma visão intervencionista da função presidencial na política governativa), e apresentou-se como salvador da nação. Tem passado estes anos a valorizar a sua preparação de economista e o seu contributo para resolver os problemas do País.

 

Agora, quando a crise aperta e já há incêndio no telhado, a culpa é dos outros, ele não tem nada com isso. Mas não foi sempre assim?

 

Por uma vez, e recusando absolutamente a anedótica e insensata comparação de Teresa Caeiro (aquela senhora que, na formação do Governo de Santana Lopes em 2004, antes da posse estava indicada para Secretária de Estado no Ministério da Defesa e acabou Secretária de Estado das Artes e Espectáculos no Ministério da Cultura, mostrando uma improvável polivalência) que, em manobra de diversão sobre a relação de Cavaco com o BPN, resolveu criar um "caso" com um trabalho literário de Manuel Alegre utilizado numa campanha publicitária do BPP, vale a pena comparar o comportamento arrogante, imperial e fugidio do candidato Cavaco Silva com o comportamento sério e frontal de Manuel Alegre, na sua esclarecedora entrevista de ontem à Antena Um (que vale a pena ouvir aqui) e o modo como assumiu e esclareceu um erro de circunstância, assumindo a natural contingência da condição humana.

 

De facto, o País precisa na Presidência de alguém humano, profundamente humano. Não é o caso de quem está convencido que nunca se engana, raramente tem dúvidas, tem uma visão paternalista da política e do poder e se afirma o mais sério da sua rua, sem para isso assumir a prova dos factos.

Henrique Sousa às 01:25 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 10.01.11

O abstencionismo, doença infantil da esquerda

A brutalidade da crise e das medidas tomadas atingindo de modo injusto e desigual a maioria dos portugueses, as promessas incumpridas, os privilégios chocantes de uma minoria de poderosos, as promiscuidades patentes entre políticas públicas e negócios privados, uma governação orientada para o bloco central de interesses e sustentada nos PECs negociados entre PS e PSD, tornam mais difícil para muitos cidadãos a compreensão da importância das eleições presidenciais para o nosso futuro colectivo e para as suas vidas e acentuam à esquerda os riscos de abstenção como modo de rejeição do actual estado de coisas. Tanto mais que para uma parte do povo de esquerda não é fácil diferenciar os combates políticos e sociais quanto à governação das opções de voto nas presidenciais.

 

A campanha que tem vindo a ser desenvolvida descaradamente por Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite e outros (e que Fernando Nobre, não por acaso, acompanha) de crítica à “classe política” e aos “políticos”, pretende exactamente pescar nas águas do legítimo desencanto dos cidadãos pelo que tem sido o curso da nossa democracia política, como se eles próprios não fossem políticos no activo e com responsabilidades grandes nos problemas acumulados pelo País e tentando fazer apagar convenientemente esse facto da memória dos portugueses.

 

Sabe a direita, unida em torno de um candidato e espreitando a possibilidade de ver cumprido o seu sonho de décadas – um governo, uma maioria, um presidente – que o discurso populista anti-“políticos” com que disfarça as suas responsabilidades, associado a um discurso de mudança que encobre o seu projecto de arrasar o Estado Social e os direitos laborais à boleia da crise, pode enganar incautos e descontentes. 

 

À esquerda, as divisões existentes e a falta de luz ao fundo do túnel quanto a uma política alternativa, favorecem o desencanto e o desânimo, a abdicação do combate político, logo, a abstenção.

 

É, pois, sobretudo à esquerda, que se torna decisiva o debate político e a mobilização pelo exercício do direito de voto e contra a abstenção, (atenção ao oportuno esclarecimento da CNE quanto ao facto de os brancos ou nulos não contarem nas presidenciais como validamente expressos e equivalerem à abstenção – ver aqui).

 

A abstenção, sendo uma opção legítima, não é solução para afirmar o desencanto e protestar contra o estado da política portuguesa.

 

No momento em que Cavaco Silva mostra cada vez mais o que lhe vai na alma e a quem serve, afirmando-se abertamente como aluno bem comportado e defensor dos mercados financeiros que castigam fortemente o nosso País em busca de lucro fácil e especulativo, agitando o papão de que a eleição de um candidato de esquerda assustaria os mercados nossos “amigos” a quem só ele daria garantias, ninguém à esquerda pode fechar os olhos e, por desencanto ou protesto, acantonar-se na abstenção, directa ou via voto branco ou nulo.

 

A candidatura de Manuel Alegre, sem ignorar a desigualdade desfavorável deste combate político, é na situação a que chegámos a candidatura da esquerda plural cuja eleição significaria colocar na Presidência da República um cidadão que não será, como já demonstrou no seu percurso de vida e no seu compromisso, um yes man do Governo e dos interesses instalados, nem um servidor atento e venerador dos mercados ou da orientação monetarista e ultraliberal da União Europeia, antes será um firme defensor do Estado Social e da Constituição.

 

Nos tempos que correm, concentrar o voto da esquerda num candidato assim não é coisa pouca ou de menor importância para o nosso próximo futuro, perante os problemas que temos pela frente e os apetites cada vez mais descobertos da direita, dos grandes interesses económicos e financeiros e dos que os servem nos partidos políticos.

Henrique Sousa às 01:35 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 08.01.11

Porque apoio a candidatura de Manuel Alegre, apesar do Governo de Sócrates

Seis razões para o meu apoio:

 

1. Porque Manuel Alegre assumiu o compromisso firme de garantir na Presidência da República a defesa inequívoca do conteúdo social da democracia, do Estado Social e de serviços públicos qualificados de acesso universal - do Serviço Nacional de Saúde, da Escola Pública e da Segurança Social pública -, e de se opor à sua liquidação e degradação.

 

2. Porque, reconhecendo a necessidade do rigor financeiro e da consolidação orçamental, rejeita que o País fique refém de políticas de austeridade recessivas; assume a necessidade de um outro modelo económico que não esteja assente em salários baixos, betão, fraca especialização produtiva e degradação dos recursos naturais; defende uma outra política económica e financeira, em Portugal e na Europa, que não fique capturada pelos mercados especulativos e pela finança, mas que  seja orientada para a criação do emprego, para o bem-estar das pessoas e para uma repartição mais justa da riqueza criada.

 

3. Porque o seu compromisso de defender e fazer cumprir a Constituição da República é sustentado nas suas comprovadas convicções democráticas, no seu percurso e testemunho de vida e assume a política, não como actividade que degrada quem a pratica, mas como acto de cidadania e exercício ético, intransigente no combate à corrupção, ao clientelismo e à promiscuidade entre Estado e interesses privados.

 

4. Porque se assume como adepto de um novo fôlego para a construção europeia, que recuse a actual lógica monetarista e de submissão aos mercados, que recupere a ideia da União Europeia como projecto político democrático, de sociedade e de civilização, de coesão social e de solidariedade entre iguais.

 

5. Porque, sendo filiado no PS, tem preservado a sua autonomia de pensamento e de posicionamento político enquanto cidadão, demarcando-se criticamente da orientação governativa do seu partido e de Sócrates em matérias essenciais como a defesa do mundo do trabalho e dos direitos sociais.

 

6. Porque é o único candidato que ousou assumir a vontade política da imperativa e necessária agregação de forças e de diálogo à esquerda, de somar esquerda à esquerda, como caminho para vencer os impasses e os efeitos do bloco central de interesses que tem desgovernado e sugado em benefício de uma minoria os recursos do País.

 

Situando-se o meu percurso político e convicções à esquerda de Manuel Alegre e sendo um opositor claro do Governo de José Sócrates, são estas razões suficientes (documentadas nos compromissos programáticos do candidato e nos seus actos), no seu conjunto e não separadamente, para que entenda que, no actual quadro de candidaturas presidenciais, Manuel Alegre dá garantias de ser um Presidente independente dos interesses, comprometido firmemente com a democracia social e política e com a Constituição, e o candidato mais bem situado para assegurar a derrota da aspiração da direita de conquistar de novo a Presidência como caminho para a monopolização do poder político em Portugal.

 

 

Henrique Sousa às 18:08 | link do post | comentar

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